Não imitem, inovem

Hélder Bastos, JN, 11 de Outubro, 1997
Todos os dias são apresentados novos livros. São feitos novos concertos. Lançados novos discos. Todos os dias há teatro. Exposições de fotografia, de pintura, de escultura, de banda desenhada. Coisas de espantar no cinema. E até nos automóveis.

Todos os dias há debates e seminários. Poesia declamada em bares. Há circo e marionetas. A toda a hora surgem curiosidades. No mundo da informática, da ciência, da medicina, da física, da comunicação, da arquitectura, do design, do mobiliário, do áudio e do vídeo.

Apesar de tudo isto e mais o outro mundo que fica de fora, pegou definitivamente a moda de, quase todos os dias, os telejornais se despedirem dos telespectadores com as Claudia Schiffer e as Naomi Campbell arrastando-se desengonçadamente na passerelle ao som de temas como "Sexy mother fucker" do Prince ou de "Discoteque" dos U2.

Dá jeito, é certo. São imagens cheias de "glamour" e leveza. Enfim, uma cereja no topo do pesado e cinzento alinhamento dos telejornais, depois dos crimes de faca e alguidar da província, das estaladas na política e de todas as catástrofes rentáveis em termos de audiências. Um dia, a SIC descobriu que a moda é um filão espectacular. E que atrás dela vinham coladas montanhas de anúncios e titias sofisticadas.

Agarrou-se ao naco com toda a dentadura e, ainda hoje, tudo o que é Calvin Klein, Versace, Ricci, Saint-Laurent, Chanel, Gaultier e desfiles em Portofino tem direito a horário de ponta.

A RTP não ficou atrás. Qual gato igualmente salivante por estas Whiskas de estilo lá começou também a associar-se às colecções de Verão, Inverno, Primavera e Outono. E a mais estações se as houvesse.

Retomando o título de um livro de Gilles Lipovetsky, precisamente sobre o mundo da moda, assistimos ao triunfo do "império do efémero" nas nossas televisões. Cada vez mais condicionados pela ditadura das audiências e pelos tiques concorrenciais - veja-se o caso dessa modalidade abjecta e infantil chamada contra-programação - os telejornais são, tirando algumas (poucas) excepções, de uma pobreza editorial confrangedora.

São-nos quase sempre relatados, com escassa análise ou enquadramento, os mesmos assuntos, ditos por outras palavras, encenados por uma diversidade reduzida de actores, colocados em diferentes cenários. Torna-se cada vez mais raro depararmos com alguma notícia ou reportagem que seja realmente notícia. Novidade. Surpresa. Pertinente. Importantíssima ou relevante para a vida das pessoas. O mesmo caminho sonâmbulo seguem, aliás, os jornais.

Poderá parecer, neste contexto, paradoxal. Mas talvez não fosse má ideia os canais de TV agarrarem numa daquelas frases cintilantes, saídas da massa cinzenta dos publicitários da moda, para se reinventarem. Por exemplo, há uma máxima de Calvin Klein que lhes ficaria a matar: "Não imitem, inovem".

Até lá, podemos puxar da cadeira para continuar a assistir ao boxe mediático entre os meninos da TV. Sempre à espreita das tropelias ou escorregadelas da concorrência. Ela está a dar o despedido Manuel José em directo? Directo já também. Ela está sugar o país com o Benfica-Porto? Estiquem-me já essa novela. O Herman está o máximo? Apimbalhe-se já o que houver aí à mão. Mandou quatro repórteres para o casamento da princesa? Metam já o dobro num avião! Não há pachorra.

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