A ideologia das notícias

Hélder Bastos, JN, 25 de Abril, 1998

A morte de Linda McCartney, mulher do antigo Beatle Paul, veio pôr de novo a nu a costela intrometida e insensata da comunicação social. Os media perderam, uma vez mais, o pudor ante a morte de uma celebridade. Como não só não deixam em paz quem vai desta para melhor como perseguem os familiares que cá ficam, Paul e a família tiveram de jogar ao gato e ao rato com os jornalistas para terem um pouco de sossego.

O falecimento de Linda já começou a render. Especula-se. Interroga-se. Disparata-se. Publica-se a torto e a direito. O argumento de que isso se faz porque o povo é quem mais ordena não chega para justificar o desrespeito pela dor mais íntima dos outros.

Atitudes de reserva e contenção como a que os media portugueses tiveram aquando do falecimento de Luísa Guterres parecem ser cada vez mais raras por esse mundo fora. A sede de ganhar, chegar primeiro, ir mais longe e chegar mais fundo, bater os outros, ser o melhor parece ser cada vez mais forte, também no jornalismo. Os escrúpulos vão-se esfumando em sociedades em que a moral, em sentido lato, perde terreno para o comercial, esvaziamento a que Gilles Lipovestky chamaria o «crepúsculo do dever».

Thomas Patterson, professor da Universidade de Harvard, esteve esta semana em Lisboa para fazer uma conferência na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Em entrevista concedida ao "Diário de Notícias", Patterson, referindo-se em particular ao contexto mediático norte-americano, dizia que o sensacionalismo «surge a partir de pressões comerciais, quando as televisões generalistas começaram a perder audiência para o cabo».

As pressões comerciais resultantes de factores concorrenciais podem ajudar-nos, de facto, a compreender melhor as razões de muitos desvarios assinados por jornais, revistas, rádios e televisões, incluindo os jogos da sensação e da especulação com a morte dos outros. Mas não explicam tudo.

A credibilidade dos media, como assinala Patterson, está em declínio. E isso é explicável, não apenas pelo desatino resultante das pressões comerciais, mas também por certos valores e referências dos profissionais da informação.

Há toda uma «ideologia das notícias» partilhada pelos jornalistas que pode acabar por afastá-los da realidade social. A informação, acrescenta o professor de Harvard, «não é um espelho da realidade, é uma visão refractada, moldada pela ideologia do jornalista». Estarão as notícias, como sugere Patterson, a perder a identidade?

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