As idades da Internet

Hélder Bastos, JN, 23 de Março, 1996
Os actuais gurus da chamada era digital fazem apostas. Meia dúzia de anos após o dobrar do século, as pessoas gastarão mais horas a navegar na Internet do que a ver televisão. Pelo menos, nos países mais ricos.

Lá para o ano 2006, aquela que é uma antevisão das auto-estradas da informação poderá estar irreconhecível aos olhos dos 30 milhões de utilizadores que a tratam por tu nos dias de hoje. Desde o seu nascimento, a rede de todas as redes tem-se transformado a um ritmo estonteante.

A sua curta vida pode ser dividida em três etapas. O "era uma vez..." da Net começa no ano em que o Homem pousou, pela primeira vez, o pé na Lua. Em 1969, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos decidia arrancar com um projecto inédito: criar uma rede subterrânea para ligar os quartéis-generais do seu exército espalhados pelo mundo. A ideia dos estrategos era impedir a destruição parcial ou total, por parte de um eventual atacante, das informações trocadas entre os militares norte-americanos.

O projecto não surgiu por acaso nem resultou de um rasgo de genialidade de um qualquer tenente fanático por aventuras do James Bond. Na época, os americanos tinham pesadelos com as criancinhas deglutidas pelos russos ao pequeno-almoço e o nome Fidel Castro causava-lhes agudas vertigens. Receavam, enfim, levar com bombas nucleares em cima de Washington ou de Los Angeles. Se elas explodissem mesmo, a rede ficaria intacta.

A infância da Internet foi, pois, tutelada e paga pelo Estado norte-americano e, em particular, pelo Pentágono. No entanto, não demorou nada a que diversos cientistas e universitários se apercebessem das potencialidades desta enorme infra-estrutura. Eles entram em força e, chegados os anos 80, é-lhes confiada a responsabilidade técnica da rede.

Os militares ficam com a parte menos fascinante da história: largar os dólares para pagar os custos.

O sistema desenvolve-se agora sob a batuta da agência científica do governo norte-americano, a National Science Foundation (NSF). Esta cria, por sua vez, a NSF-NET, espinha dorsal do sistema que liga pequenas redes informáticas universitárias.

A adolescência da Net representa anos de ouro para grandes cabeças pensantes e amigas do saber. Quase de graça colocam artigos, teses e outros documentos académicos na rede à consideração dos colegas. Era restrito e muito bom, mas este paraíso não se manteria por muitos anos. A entrada na idade adulta, digamos assim, deu-se no início da década de 90 e foi um choque.

Em 1993, um rapaz do Illinois, estudante universitário cujo salário mensal rondava a meia dúzia de dólares, inventava o programa Mosaic, um "browser" que permite ao cibernauta navegar facilmente pelas páginas da World Wide Web (WWW), uma das partes mais atraentes da Net.

O Mosaic multiplicou por milhares de vezes o tráfico na rede. Em 1994, a WWW registava um crescimento de 1700 por cento. E logo as empresas se puseram à espreita das possíveis oportunidades de negócio.

Em pouco mais de dois anos, para horror de boa parte da comunidade académica e de outros cibernautas puristas, 80 mil empresas entraram na rede, preocupadas, acima de tudo, com cifrões. Lá se foi o espírito do tudo é grátis, orgulho do ciberespaço até então.

Aparecem os serviços pagos, os jornais electrónicos por subscrição, as lojas de discos, livros, gravatas, carros, flores, computadores, os pagamentos feitos através de cartão de crédito. Tudo se compra e vende livremente. Nasce o conceito de "e-cash" ou dinheiro electrónico.

Perto de dois milhões e meio de cidadãos norte-americanos e canadianos fazem hoje compras via Internet. De jovem bem comportadinha a Net passou, num ápice, a "yuppie" crescida e tremendamente apetecida. Numa palavra, um sucesso.

Com estes e muitíssimos outros ingredientes, a Net tem tudo para se vir a tornar o grande "media" do próximo século, oferecendo cada vez mais serviços à escala planetária a preços cada vez mais reduzidos.

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