Como comprar 25 mil notícias de uma penada

Hélder Bastos, JN, 3 de Dezembro, 1994

Há um povo, no sudoeste da Ásia, chamado Hmong, que, até há bem pouco tempo, não tinha a sua história escrita em lado nenhum. Os feitos da tribo estavam apenas gravados na cabeça dos seus membros e eram transmitidos, oralmente, de geração em geração. Só quando alguns Hmong partiram para a América, em busca de refúgio, é que se começaram a preocupar em deixar registada a sua herança cultural.

Os Hmong ficariam por certo boquiabertos se alguém lhes dissesse que, muito provavelmente, é possível registar toda a memória histórica do seu povo apenas num pequeno disco compacto de um palmo, o CD-ROM. Seria delicioso imaginar um Hmong a ter uma conversa, por exemplo, com o director de "El País", o primeiro diário espanhol a lançar uma versão em CD-ROM das suas páginas, à semelhança do que já fizeram prestigiados diários europeus, como "The Times", "Corriere della Sera", "Le Monde" ou "Frankfurter Allgemeine Zeitung".

O director do periódico espanhol explicaria ao atento Hmong que "El Mundo" pode, desde esta semana, ser lido no ecrã de um computador, sem necessidade de sujar as mãos no papel de jornal ou ter que passar pelos anúncios publicitários.

Basta ir a um quiosque, comprar o CD-ROM, introduzi-lo num leitor próprio para estes discos, parecidos com um CD de música, e carregar nas teclas para ler as notícias e ver as fotografias.

Neste primeiro CD-ROM de "El Mundo", estão metidas 25 mil notícias, isto é, cópias de todos os exemplares do jornal, um por um, desde Janeiro até Junho de 1994.

"Fantástico!", diria o deslumbrado Hmong, perguntando a seguir ao director: "Então, se você mete seis meses de jornais num disquinho compacto, para que são precisos jornais de papel?"

É à volta deste tipo de questões que se têm feito debates apaixonantes, em colóquios e e congressos por esse mundo fora. Trata-se de saber se os jornais, tal como os conhecemos hoje, vão desaparecer para darem lugar a diversos herdeiros informáticos. Isto é, se vamos deixar de folhear os jornais em papel para passarmos a ler as notícias sentados em frente em frente ao computador.

Há uma corrente de opinião que não tem dúvidas. Antes do final do século, você vai mesmo ler, por um preço acessível, o seu diário num computador portátil, enquanto toma o pequeno-almoço ou faz uma pausa no trabalho.

Os grandes grupos de comunicação norte-americanos e europeus parecem apostar a sério nesta "revolução da imprensa electrónica". Por isso, estão a fazer investimentos vultuosos na tecnologia dos chamados jornais electrónicos.

Os responsáveis de "El Mundo" também prometem, para os próximos meses, uma edição electrónica. Isto significa que os seus leitores vão passar a ter a possibilidade de lerem o jornal, todos os dias, através do computador. Basta ligarem-se a "El Mundo" através do telefone e de um "modem".

Os magnatas dos "media" estão atentos a estas evoluções porque têm em mente um fenómeno crescente nas últimas décadas: a perda gradual de leitores e de receitas publicitárias dos jornais tradicionais, incluindo os mais prestigiados do Mundo.

Em 1967, perto de 75% dos norte-americanos com mais de 30 anos liam um jornal. Hoje, apenas metade o faz. Perante este panorama, os jornais tentam renovar-se, diversificando a sua oferta para captarem novos leitores.

Ao mesmo tempo, os jornalistas interrogam-se sobre qual vai ser o seu papel na "imprensa electrónica", quando é um dado adquirido que a sua convivência com produtos informáticos será cada vez maior.

Estes profissionais, consideram os mais pessimistas, tornar-se-ão em meros empacotadores e fornecedores de linguagem binária, isto é, a dos computadores.

Não deixará de ser curioso observar, por um lado, a adaptação dos jornalistas às transformações do seu meio profissional e, por outro, a receptividade dos leitores ao admirável mundo novo da Imprensa. Perspectivas mais optimistas sobre tudo isto parece ter o magnata dos "media" australiano Rupert Murdoch. Ele diz acreditar que os jornais vão demorar muito tempo a morrer e que haverá muito dinheiro para os sobreviventes.

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