Do hino do FCP ao silêncio da Casa Branca

Hélder Bastos, JN, 3 de Maio, 1997
O texto, ou melhor, o hipertexto é ainda rei na Internet. Mas o som e o vídeo ganham espaço de dia para dia na parte multimedia da rede, a World Wide Web.

Ainda na semana passada fazíamos referência nesta coluna ao facto de, no sítio do Centro de Documentação 25 de Abril, podermos escutar músicas de Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e outras vozes marcantes da Revolução dos Cravos. Trata-se de um pequeno arquivo sonoro histórico, disponível 24 horas por dia, consultável a partir de qualquer ponto do planeta. É exemplo a seguir. Em prol da democratização efectiva da informação.

Páginas outrora constituídas apenas por textos enfeitados com grafismos coloridos apresentam-se agora recheadas com excertos de som. Por vezes, também lá está o vídeo pronto a descarregar para o nosso computador. Não faltam exemplos.

No sítio do Futebol Clube do Porto, o jogador Domingos recebe os cibernautas com uma mensagem vídeo de boas-vindas. Além disso, enquanto se lê o editorial da revista "Dragões" pode-se ir descarregando o hino do F.C.P. . Na pior das hipóteses, ao fim de alguns minutos está pronto a ouvir.

Página do músico Pedro Abrunhosa. Clique-se no botão "Mediateca". É só escolher os excertos de música que quer ouvir do álbum "Tempo". Tem é sempre aquele inconveniente exasperante da espera: para 30 segundos de música temos de aguardar mais de um minuto e para 30 segundos de vídeo cerca de 11 minutos. Por estas e por outras é que a Internet ainda não é uma auto-estrada da informação.

Os pobres fios de cobre, habituados até há pouco anos a servirem apenas de canal ao blá blá das conversas telefónicas, viram-se de súbito invadidos por quantidades brutais de bits em forma de textos, sons e vídeos trocados por computadores espalhados pelo mundo inteiro. Melhores dias virão.

As páginas da Assembleia da República, neste aspecto, não são muito problemáticas. Almeida Santos dá-nos as boas-vindas apenas com texto e fotografia. E, já agora, no sítio do vice-presidente mais ciber do planeta, a Casa Branca? Al Gore também ainda não apostou no som. "Good Afternoon, welcome to the White House" em texto e chega.

A Rede Globo, do Brasil, já é mais colorida. Além de ajudar a eleger e derrubar presidentes, a cadeia de Roberto Marinho montou um sítio razoável na Internet. O cibernauta é recebido com uma curta apresentação gravada de Celso Freitas. Deve ser lá muito conhecido no Brasil este homem de poderosa voz radiofónica.

Rádio Comercial, a portuguesa. Foi a primeira rádio do país a emitir em directo 24 horas por dia na Net. E desde aí nunca mais parou. Tem diversas rubricas interessantes, como a conversação sonora em tempo real (audiochat), o trânsito filmado em certas zonas de Lisboa e um arquivo com sons. Entre estes encontram-se os relativos ao recente Congresso Internacional de Jornalismo de Língua Portuguesa, realizado em Lisboa.

A Comercial tem arquivadas muitas das comunicações lá apresentadas pelos participantes. O tema forte foi precisamente a relação entre o jornalismo e as novas tecnologias, com destaque para esse bicho de sete cabeças chamado Internet.

P.S. Hoje assinala-se o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Na Internet, a Associação Mundial de Jornais abriu uma página especial para este dia. No endereço http://www.fiej.org/ encontram-se, em francês, inglês, espanhol e alemão, detalhes sobre jornalistas encarcerados um pouco por todo o mundo, estatísticas sobre violações à liberdade de informar e artigos sobre a matéria. A organização Repórteres Sem Fronteiras, em http://www.calvacom.fr/rsf/, também disponibiliza bom material relativo à censura exercida sobre jornais e jornalistas. E elaborou mesmo um "top" com os 25 maiores inimigos da liberdade de imprensa. À cabeça surge Li Peng. O primeiro-ministro da China mantém 15 jornalistas presos no seu país.

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