Uma delas é o festival "Jazz no Parque". Tem como palco a casa mais bonita do Porto, a Casa de Serralves, e realiza-se todos os anos por esta altura. Faz hoje oito dias, teve lugar o último concerto de 97. O Quinteto de Dave Holland proporciou um final de tarde calmo e harmonioso a quem o ouviu, bem à imagem dos jardins ali ao lado. Mas, deveria haver mais "Jazz no Parque". Não para o ano. Hoje mesmo. Durante todo o mês.
Já que estamos a divagar sobre locais agradáveis falemos também dos claustros do Mosteiro de S. Bento da Vitória. Aqui, local de acústica admirável, têm tido lugar concertos sob a batuta da Orquestra Clássica do Porto. Para quem anda de candeias às avessas com os ritmos destrambelhados deste Verão e não é propriamente fã de festas "rave" ou dos decibéis inflacionados dos bares da Ribeira, ouvir Prokofiev, Wagner, Debussy ou Rodrigo trepar por aquelas paredes pesadas de história acima é uma verdadeira benção. O coro das gaivotas costuma juntar-se ao som puro dos violinos para nos lembrar que estamos ao ar livre, a dois passos do rio Douro. Cinco estrelas.
Por vezes, depois de momentos destes, podemos chegar a casa, ligar a televisão e, milagre dos milagres, não ficarmos com azia televisiva provocada pelo telelixo jorrado com abundância pelos canais. À terça-feira, por volta da meia-noite, na RTP 2, Jools Holland convida-nos a ver e ouvir música tocada ao vivo. Aqui não se engana os telespectadores com uma das maiores palhaçadas até hoje impingidas pela TV: o tristemente famoso "play back". Esta modalidade trapaceira e idiota está de tal modo vulgarizada que já ninguém liga. Nem tão pouco se lembra do absurdo que ela constitui. Cantores abrindo a boca, gesticulando convictamente, fingindo estarem a cantar. Não lembra ao diabo. Esta semana, Jools brindou-nos com as actuações de Sinead O'Connor, Laurie Anderson, Alison Moyet e Dusty Springfield, entre outros. Nada mau.
De Inglaterra vêm ainda dois outros excelentes programas, também exibidos na RTP 2. À terça, hora de jantar, podemos afundarmo-nos à vontade no sofá com a certeza de que se seguem momentos de boa disposição pela mão de John Cleese, o mestre dos fabulosos "Monty Phyton". A série intitula-se "A grande barraca" e reconcilia-nos, pelo menos durante alguns minutos, com a televisão do Estado. Ao sábado, noite adentro, o humor prossegue com "O guia do sexo". Humor com este título? Sim senhor. Só mesmo os súbditos de Sua Majestade para conseguirem um equilíbrio tão perfeito entre boas gargalhadas e bons conselhos sobre um assunto que continua a dar comichão aos arcebispos.
Se ainda tiver tempo para ouvir um pouco de rádio, não deixe de passar a agulha pela Antena 2 ou mesmo pela Antena 3, agora que a XFM passou de vez à história. Estas ondas ainda não chafurdam demasiado em pacotões de publicidade empurrados à força para dentro dos tímpanos. Os locutores podem não ser perfeitos. Mas não se pode acusá-los de histeria vocal ou verborreia parola.
Se, por acaso, tiver a sorte de apanhar no ar faixas dos últimos álbuns de Sérgio Godinho, Gabriel o Pensador ou do falecido Frank Zappa vale a pena aumentar um pouco o volume do seu receptor.
Livros? Caso queira entremear a leitura de romances com perspectivas interessantes sobre o que as novas tecnologias andam a fazer com as nossas vidas, não deixe de folhear "A Pele da Cultura", de Derrick de Kerckhove, e "A Inteligência Colectiva", de Pierre Lévy".
Quanto a cinema nesta altura estamos conversados. Veja sempre bons filmes. Em casa.