Há gosto

Hélder Bastos, JN, 9 de Agosto, 1997
Em Agosto param as máquinas. Marcelo, Coelho e companhia deixam de nos massacrar diariamente com pornografia política no pequeno ecrã. Herman, infelizmente, está de humores no Algarve. O país encontra-se quase todo debruçado sobre a costa para se banhar de sol, de água discretamente conspurcada e de filas intermináveis para tudo. As grandes cidades estão em saldo. As notícias expiram nos jornais. As revistas do "Jet 7" enjoam. Os cinemas exibem pipocadas de peso. Mas... Agosto também tem coisas boas.

Uma delas é o festival "Jazz no Parque". Tem como palco a casa mais bonita do Porto, a Casa de Serralves, e realiza-se todos os anos por esta altura. Faz hoje oito dias, teve lugar o último concerto de 97. O Quinteto de Dave Holland proporciou um final de tarde calmo e harmonioso a quem o ouviu, bem à imagem dos jardins ali ao lado. Mas, deveria haver mais "Jazz no Parque". Não para o ano. Hoje mesmo. Durante todo o mês.

Já que estamos a divagar sobre locais agradáveis falemos também dos claustros do Mosteiro de S. Bento da Vitória. Aqui, local de acústica admirável, têm tido lugar concertos sob a batuta da Orquestra Clássica do Porto. Para quem anda de candeias às avessas com os ritmos destrambelhados deste Verão e não é propriamente fã de festas "rave" ou dos decibéis inflacionados dos bares da Ribeira, ouvir Prokofiev, Wagner, Debussy ou Rodrigo trepar por aquelas paredes pesadas de história acima é uma verdadeira benção. O coro das gaivotas costuma juntar-se ao som puro dos violinos para nos lembrar que estamos ao ar livre, a dois passos do rio Douro. Cinco estrelas.

Por vezes, depois de momentos destes, podemos chegar a casa, ligar a televisão e, milagre dos milagres, não ficarmos com azia televisiva provocada pelo telelixo jorrado com abundância pelos canais. À terça-feira, por volta da meia-noite, na RTP 2, Jools Holland convida-nos a ver e ouvir música tocada ao vivo. Aqui não se engana os telespectadores com uma das maiores palhaçadas até hoje impingidas pela TV: o tristemente famoso "play back". Esta modalidade trapaceira e idiota está de tal modo vulgarizada que já ninguém liga. Nem tão pouco se lembra do absurdo que ela constitui. Cantores abrindo a boca, gesticulando convictamente, fingindo estarem a cantar. Não lembra ao diabo. Esta semana, Jools brindou-nos com as actuações de Sinead O'Connor, Laurie Anderson, Alison Moyet e Dusty Springfield, entre outros. Nada mau.

De Inglaterra vêm ainda dois outros excelentes programas, também exibidos na RTP 2. À terça, hora de jantar, podemos afundarmo-nos à vontade no sofá com a certeza de que se seguem momentos de boa disposição pela mão de John Cleese, o mestre dos fabulosos "Monty Phyton". A série intitula-se "A grande barraca" e reconcilia-nos, pelo menos durante alguns minutos, com a televisão do Estado. Ao sábado, noite adentro, o humor prossegue com "O guia do sexo". Humor com este título? Sim senhor. Só mesmo os súbditos de Sua Majestade para conseguirem um equilíbrio tão perfeito entre boas gargalhadas e bons conselhos sobre um assunto que continua a dar comichão aos arcebispos.

Se ainda tiver tempo para ouvir um pouco de rádio, não deixe de passar a agulha pela Antena 2 ou mesmo pela Antena 3, agora que a XFM passou de vez à história. Estas ondas ainda não chafurdam demasiado em pacotões de publicidade empurrados à força para dentro dos tímpanos. Os locutores podem não ser perfeitos. Mas não se pode acusá-los de histeria vocal ou verborreia parola.

Se, por acaso, tiver a sorte de apanhar no ar faixas dos últimos álbuns de Sérgio Godinho, Gabriel o Pensador ou do falecido Frank Zappa vale a pena aumentar um pouco o volume do seu receptor.

Livros? Caso queira entremear a leitura de romances com perspectivas interessantes sobre o que as novas tecnologias andam a fazer com as nossas vidas, não deixe de folhear "A Pele da Cultura", de Derrick de Kerckhove, e "A Inteligência Colectiva", de Pierre Lévy".

Quanto a cinema nesta altura estamos conversados. Veja sempre bons filmes. Em casa.

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