Quando se fala de computadores com alguém, a dada altura da conversa vem à baila o problema da desactualização aceleradíssima dos modelos. "Vais comprar um MMX? Olha que já andam por aí máquinas equipadas com o Pentium II! Daqui a três meses isso já passou à condição de tractor e não vale nada!".
Os alérgicos à informática com pachorra suficiente para assistir a esta inebriante troca de palavreado esotérico ficam absolutamente petrificados.
E a pergunta inocente que fazem é: "Mas... para quê comprar um computador agora se ele vai ser um caco velho daqui a meses?" Era precisamente perguntas simples como esta que os fabricantes dos discos duros com caixa, ecrã e teclado por fora precisavam de ouvir com toda a atenção. As pessoas estão cada vez mais saturadas da produção das empresas ligadas a este sector. Nalguns mercados mais maduros, como o norte-americano, os meios de comunicação social já por várias vezes fizeram eco dos sintomas de indigestão dos cidadãos.
Depois vêm os programas, o tal "software". Vêem-se nas montras das lojas de informática, todos muito bem embaladinhos e coloridos. O potencial comprador só engole em seco quando olha para os verdadeiros calhamaços ao lado. São os manuais desses programas cujo volume se encarrega de desmobilizar os menos dispostos a passarem três meses em estado de sítio digerindo aquilo.
A ansiedade provocada pelo excesso na cadência só pode deixar insatisfeita a generalidade dos consumidores. Mal acabam de se entender com os truques e dicas do "Windows 95" e eis que já começam a falar no "Memphis" ou no "Windows 98" nas revistas da especialidade. "Já tens a última versão do Netscape? E do Eudora? Não deixes de experimentar o novo Word. Já agora, vê se arranjas algum tempo para explorares o Hot Dog".
Nicholas Negroponte não é propriamente um nabo no tocante ao mundo da electrónica. Figura de proa da era digital e director do laboratório de media de um dos institutos de tecnologia mais conhecidos do mundo, o MIT, Negroponte insurge-se precisamente contra a passada incontrolada, quase esquizofrénica, dos gigantes da informática.
Pergunta ele no número de Julho da revista "Wired": "Já repararam recentemente no tamanho e na complexidade do Microsoft Word? Ultrajante". Mais à frente mostra-se espantado com a capacidade que tanta gente por esse mundo fora tem para utilizar o sistema operativo "Windows 95" sem se queixar.
Solução para tudo isto? Para o autor do livro "Ser Digital", o melhor é mesmo protestar. Mas não só. Os consumidores precisam também de fazer greve, formando uma espécie de cartel contra o que chama de "obesidade digital". É tempo, diz, de os computadores perderem algum peso, tornando-se menos complicados de manipular e mais amigos de quem tem de os gramar.
De facto, não é preciso ser especialista em computadores para constatar algo muito simples: à abundância de novos produtos, como processadores e programas, não tem correspondido uma melhoria substancial do relacionamento das pessoas com as máquinas. Tem falhado o aperfeiçoamento daquilo a que os especialistas chamam o "interface".
No filme "2001 - Odisseia no Espaço", Stanley Kubric dá-nos a conhecer um super-computador com quem se pode ter uma conversa agradável. O HAL fala fluentemente com os seus interlocutores e, qualidade suprema, pensa por ele próprio. À beira do HAL, os actuais computadores parecem mesmo estúpidos.
Nem sequer são capazes de reconhecer os seus próprios donos. Ao contrário dos cães...