Esta última pergunta foi feita por um português preocupado ao ex-presidente da República Ramalho Eanes, na semana passada. Segundo o relato de "O Independente", o general tartamudeou, sem citar o nome, que já havia por cá "uns senhores" parecidos com Berlusconi. Pinto Balsemão, pensaram todos.
Por esta amostra, não deve faltar quem pense que o patrão da SIC, do Expresso, de A Capital e de outros possa usar os meios de comunicação social de que dispõe para ajudar a eleger-se a si próprio nas próximas eleições presidenciais.
Independentemente de saber o que vai na cabeça do candidato a candidato presidencial Pinto Balsemão, é interessante conhecer algumas das questões que o uso dos "media" para fins políticos deste tipo levantam.
Na Itália, pela primeira vez na história política contemporânea, um homem de negócios, dono de várias cadeias de televisão, não hesitou em servir-se delas para chegar ao poder, num país atolado e farto de políticos corruptos. Há quem não tenha dúvidas de que o exemplo de Silvio Berlusconi vai ser seguido e que isso representa um perigo real para as democracias ocidentais.
Desde logo, por causa de atitudes como a que o novo primeiro-ministro italiano tomou na semana passada. Berlusconi, dono de três canais privados, sugeriu que a televisão estatal da Itália deveria passar a alinhar com os pontos de vista do seu governo. Ele considera anormal que, num Estado democrático, exista um serviço público que seja contra a maioria parlamentar.
O calibre do disparate foi tal que até aliados seus ficaram alarmados. Os opositores acusaram-no de, no mínimo, querer transformar a televisão do Estado num megafone afinado da maioria.
Começa aqui o que muitos receiam: a confusão entre os poderes e os interesses do Estado com os de empresas privadas proprietárias de órgãos de comunicação social.
O filósofo francês Paul Virilio considera que Berlusconi fez o primeiro "golpe de Estado mediático" da história europeia à custa de uma campanha eleitoral parecida com as que são feitas em países da América, principalmente a do Sul.
Dá o exemplo do Brasil e o da estação privada TV Globo, no "papel importante" que teve nas eleições presidenciais que levaram Collor de Melo à presidência. Aquela estação, "com 80% da audiência nacional, os seus milhares de empregados, o seu grande complexo político-informacional, em que as informações são directamente concebidas pelos serviços de marketing da cadeia, representa tudo menos um simples órgão da livre expressão democrática de uma nação"(1).
Todos reconhecem o poder esmagador da televisão e a sua influência nos diversos sectores das sociedades. Mas a imagem da televisão como uma diabólica caixa mágica de lavar cérebros e de eleger políticos também é contestada.
Dominique Wolton, autor do livro sobre televisão "Elogio do Grande Público", publicado cá recentemente, diz que o poder do pequeno ecrã não pode servir para explicar todas as desgraças, como a eleição de Berlusconi.
Para Wolton, é errado partir do princípio de que os espectadores são todos parvos e acéfalos e que aceitam passivamente tudo o que as televisões vomitam. De há 50 anos para cá, todas as pesquisas atestam a capacidade crítica do público face à imagem. Entre esta e o espectador, há a História, os valores de cada um, as ideologias, as preferências de uns e de outros.
Por isso, defende o autor, em vez de denunciar a tirania televisiva, faríamos melhor em analisar as causas históricas, sociais ou económicas de acontecimentos como a eleição de Berlusconi.
Será que, afinal, o general Eanes tem razões para estar preocupado?
(1) "Le Monde des Débats", Maio de 1994