Quem tinha dúvidas sobre as potencialidades da Internet como meio de publicação deve-as ter perdido de vez. A estreia mundial instantânea do relatório picante de Starr sobre Clinton e Lewinsky deixou os media e os jornalistas pregados ao chão. A dúvida seguinte é: o que vai acontecer ao jornalismo tradicional?
Toda a recente hecatombe sexual e política do presidente norte-americano está ligada à Internet. Primeiro foi um tal Matt Drudge a levantar o véu à senhora Lewinsky através da sua coluna de mexericos publicada na rede mundial de computadores. Depois, o procurador Starr encarregou-se de pôr todo o planeta de retina colada à Web espreitando a primeira narrativa «hard core» sobre a Casa Branca.
Anteontem, uma revista da Internet foi ao armário do congressista republicano Henry Hyde e tirou de lá um esqueleto em adiantado estado de adulteração. Hyde, encarregado de analisar as acusações feitas por Starr ao presidente Clinton, havia, nos idos anos sessenta, perdido a cabeça por uma cabeleireira de Chicago e dado uma facada no casamento. Alguns media tradicionais sabiam do caso, mas não o contaram.
Estes episódios vêm reforçar a argumentação daqueles que acreditam que o jornalismo tradicional tem os dias contados face à crescente força da Internet. Antevisões exageradas ou não, o certo é que as coisas estão mesmo a mudar de forma particularmente acelerada e imprevisível.
Até por cá a imprensa tem dado conta dos sintomas com títulos do género: «Escândalo marca o fim do jornalismo tradicional» («Diário de Notícias») ou «Relatório de Starr mostra força da Internet» («Público»).
O ponto crucial desta história relaciona-se com o facto de as pessoas terem agora, através da Internet, a possibilidade de acederem directamente a fontes e conteúdos, sejam eles quais forem, sem precisarem da intermediação dos jornalistas. Até hoje, os profissionais da informação detinham, de alguma forma, o monopólio da escolha e filtragem das notícias que chegavam ao grande público. Esse monopólio acabou.
As novas realidades impõem, portanto, uma adaptação progressiva dos jornalistas aos paradigmas da era digital emergente. Se não quiserem passar à condição de relíquia, terão de se preparar mais e melhor e, quem sabe, de reformular algumas das suas concepções tradicionais sobre a própria profissão.