Uma nova e estrambótica espécie de rádio conquista terreno na paisagem mediática do país: a rádio fantasma. Lá dentro não tem ninguém. Tem microfones, colunas, auscultadores, mesas de mistura, gira-discos, cinzeiros, caixotes de lixo, enfim, vestígios da passagem da raça humana por aqueles territórios, outrora povoados de gente com emoções para mostrar no ar. Nem que fosse para dizer disparates. Para dar biqueiros acertados na gramática e pontapés estridentes na dicção. Para debitar chavões rompidos do género "fique por aí, fique bem, uma boa noite para si". Não interessa. Era bem melhor do que ouvir estações que não tugem nem mugem.
As rádios fantasmagóricas parecem quase sempre resultar de projectos falhados. O falhanço, como está fácil de ver, é invariavelmente provocado pela sucessão de asneiras, assim à maneira da gestão Damásio do Benfica, assinadas por gestores com a mania das grandezas ou com vistas carenciadas de lentes de contacto.
Veja-se o resultado da pompa e peito insuflado, do género vamos dar cabo da TSF, feito à volta da alfacinha Central FM e no que aquilo deu. Agora é uma fantasminha com tecnologia de ponta reduzida à condição de capacho promocional de uma loja de discos. Os CD tocam uns atrás dos outros, qual "juke box" gasta e abandonada na esquina, para ouvintes pouco exigentes. É que entre escutar rádio e ouvir música em FM vai uma grande diferença.
Quem escuta rádio gosta, quer, procura intencionalmente algo do outro lado do receptor. Pode ser uma voz forte e timbrada, como a de António Sérgio. Um bom animador, cada vez mais difícil de encontrar. Alguém que traga os discos antigos lá do sótão de casa para deles falar com gosto e nostalgia. Ou mesmo, pronto, aqueles sermões horripilantes com efeito de salão e qualidade de som nada celestial de algumas confissões religiosas. Há quem goste e precise. Tudo menos não haver nada do outro lado.
Parece estar-se a perder o rasto a uma ideia muito simples: a rádio é sobretudo uma companhia, útil ou agradável, para as pessoas. Cada uma roda o botão até encontrar a desejada. É duvidoso que alguém goste de estar acompanhado apenas por máquinas em piloto automático. O outro lado da rádio é onde deve estar sempre alguém. De carne e osso. São os cifrões, sempre os cifrões, a darem as suas cartas. Nos próximos anos, vamos ver muitas mais mentes iluminadas torrarem de contentes pela descoberta da fórmula da rádio onde só os fantasmas entram no ar.
P.S. O Governo acaba de dar uma valente bazucada na Sociedade da Informação. É assim: o Livro Verde para a Sociedade da Informação, aprovado em Abril pelo Governo e anunciado publicamente pelo primeiro-ministro, diz que o Estado deve empenhar-se em facilitar o acesso dos cidadãos à Internet, aos CD-ROM, etc.. Mas a nova Constituição, cuja revisão foi publicada agora no Diário da República, tratou de suavizar a coisa. A redacção do artigo 35º, segundo nos adianta o Público, foi modificada de forma a libertar o Estado da obrigação de "promover o acesso universal aos novos meios de comunicação." Agora só tem de garantir "livre acesso às redes informáticas de uso público." Isto é como no futebol. Muitas tácticas, muitas conferências de imprensa e treinadores de bancada e verborreia quanto baste. Mas, na hora de chutar à baliza...