Ninguém explica!

Hélder Bastos, JN, 21 de Junho, 1997
Um dia destes, a TVI mostrou várias peças jornalísticas a propósito da cimeira de Amesterdão. Num desses trabalhos, o jornalista foi fazer daquelas entrevistas de rua circunstanciais, onde se apanha de tudo.

À pergunta "sabe o que é o euro?" a maior parte dos entrevistados soube dar respostas algo arranhadas. Mas toda a gente se espalhou ao comprido quando o raio do microfone ali em frente queria saber o que são esses afamados "critérios de convergência" engendrados lá pelos burocratas de Bruxelas. Adivinhava-se, a avaliar pelas expressões faciais de quem estava em frente à câmara de filmar, a vontade de desabafar qualquer coisa como: "ops, desliguem lá agora essa maquineta, tá bem, que eu de critérios, pois... tenho de ir trabalhar".

Voltamos aos estúdios. Para ver o "pivot" do telejornal esboçar um sorriso complacente perante a falta de sentido europeu dos entrevistados. E vamos já para outra notícia. Só que... alto lá, afinal o que são os critérios de convergência?

Ninguém se deu ao trabalho de explicar. Mesmo de forma sintética e acessível. Isto é, o canal de TV fez um excelente trabalho constatando que para o povo -perdão, pessoas - "critérios de convergência" é tão inteligível como os raciocínios do Zandinga. Mas depois esqueceu-se de fazer o mais elementar: explicar aos milhões de telespectadores esses misteriosos critérios.

Com estas e com outras, os meios de comunicação social ajudam a perpetuar a ignorância dos cidadãos relativamente a assuntos de enorme importância social, política e económica. Chutar notícias para a frente em pacotes, umas em disputa com as outras, sob pressão do tempo e minutos a cumprir, tem como consequência directa a falta de refinamento do próprio conteúdo noticioso. É a velha história. Dá-se o texto, mas não há tempo para o contexto.

Além disso, a própria linguagem jornalística encontra-se de tal maneira fossilizada que não é facilmente descodificada pelo comum dos mortais sentado no sofá em frente ao ecrã. Trocar os assuntos mais complicados por miúdos, de forma a que todos os entendam, é uma tarefa muito exigente.

Talvez não fosse má ideia dar uma olhadela na forma como, por exemplo, muitos jornalistas brasileiros escrevem e relatam assuntos normalmente tidos como chatos, como é o caso das notícias das áreas financeira, económica, fiscal e por aí adiante. Os mais talentosos produzem verdadeiras delícias partindo de uma ideia muito simples: colocar o cidadão no centro da própria notícia.

Assim, em vez de se limitarem a reproduzir a linguagem dos "press-releases" e dos documentos oficiais, procedimento que atinge proporções alarmantes no jornalismo dos nossos dias, eles agarram nos leitores de forma directa: "O Governo acaba de anunciar um pacote de medidas para reduzir o défice público. Sabe o que é que isto quer dizer? Que vão mexer no bolso de você. Nós explicamos como". É desconcertantemente simples.

Por cá, o jornalista Perez Metello faz este trabalho de uma forma exemplar. É dos poucos a conseguir, no campo do jornalismo ligado à economia, aliar um bom domínio técnico das matérias à capacidade de as tornar acessíveis ao grande público. Não se pense que isto se consegue sem esforço.

Se folhearmos certos jornais e revistas de economia dirigidas a públicos não especializados verificamos que a maior parte dos textos são absolutamente intragáveis, desinteressantes e balofos no seu hermetismo. Estão corroídos pelo "economês".

Curiosamente, outra área começa paulatinamente a seguir estes pouco recomendáveis passos. Da próxima vez que pegar num diário ou semanário com páginas dedicadas aos computadores entretenha-se a contabilizar o número de palavras que não entende em cada texto. E, depois, inspirado no personagem "Tó" de Herman José pode exclamar bem alto: "Ninguém explica, pá! Ninguém explica!"

P.S. CONVERGÊNCIA - Processo pelo qual os valores macroeconómicos dos quinze países da União Europeia devem aproximar-se entre si para criar o euro, que será a moeda europeia a partir de 1 de Janeiro de 1999. Por isso, todos os estados devem afinar a sua economia de forma a convergirem em cinco critérios: défice público, dívida pública, taxas de juro, estabilidade de taxas de câmbio e inflação.

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