O tema da especialização jornalística foi abordado esta semana no oportuno seminário "Jornalismo: Transmissão de Conhecimentos ou Degradação do Saber?", que teve lugar no Convento da Arrábida, em Sintra. E foi oportuno por várias razões.
Primeiro, porque ocorreu dias depois da morte da princesa Diana e da discussão planetária que se seguiu sobre a responsabilidade dos terroristas da fotografia, conhecidos pelo nome de "paparazzi", no acidente. Por arrastamento, a generalidade dos jornalistas foi posta em causa pelo público.
Segundo, porque levantou questões prementes relativas ao campo jornalístico, como o impacto das novas tecnologias, o futuro próximo dos meios de comunicação social, os imperativos éticos versus imperativos financeiros e a formação profissional. Ninguém tem hoje dúvidas de que as coisas estão a mudar rapidamente. E isso exige particular atenção e reflexão por parte, não apenas dos jornalistas, mas também dos professores, empresários e organismos ligados aos media. O jornalismo tocado de ouvido não tem grande futuro.
Terceiro, porque o debate de Sintra se revelou mais um bom contributo, até pela repercussão obtida nos jornais, para a discussão do jornalismo em Portugal. Há ainda muito boa gente a acreditar piamente que isto não é assunto para discutir de portas abertas.
A questão da especialização gravita cada vez mais em torno do público ou, melhor dizendo, públicos. O público vai-se libertando gradualmente dos monopólios de oferta - veja-se a dinâmica introduzida no panorama mediático português com o aparecimento das televisões privadas e da TV por cabo - para se constituir em públicos disseminados por determinadas áreas de interesse.
O caso das revistas especializadas é outro exemplo. Nos últimos tempos multiplicam-se como cogumelos nos quiosques. Ele é revistas para fãs do todo-o-terreno, surfistas de fim-de-semana, modas berrantes, jet-set batido, marias e corações, vida no campo, design e publicidade, cães, gatos e pássaros e por aí adiante. A tendência para a fragmentação é galopante e alguns temem mesmo que, com o advento dos jornais e revistas electrónicas, as pessoas se isolem nos seus silos de interesse e percam gradualmente a capacidade de falarem de temas do dia-a-dia.
Neste contexto, caberá aos media de informação geral servirem de contrapeso à tendência fragmentadora. Eles são um pouco a "cola" social, garantindo a manutenção da agenda dos assuntos de interesse da sociedade. No entanto, sendo por natureza generalistas, vêem-se agora na contingência de terem de fazer boa ginástica para, sem perderem as suas características essenciais, responderem aos novos desafios.
Caso particularmente agudo é o dos jornais diários e semanários. Como vão eles, que têm visto as suas vendas diminuirem um pouco por toda a Europa e nos Estados Unidos, ombrear com a oferta avassaladora das televisões, dos canais por cabo, da vindoura TV digital, da Internet, das publicações especializadas? Como escrevia recentemente o director do Público, a resposta passa certamente pela aposta na qualidade.
É aqui que entra a necessidade de especialização dos jornalistas. Para quê? Para que os assuntos sejam bem explicados e não apenas relatados aos leitores. Para que o jornalista não seja apenas pé de microfone e possa enquadrar devidamente as matérias. Para que não "engula" passivamente tudo o que os "especialistas" lhe debitam para o gravador. Para que seja capaz de, num mundo pejado de dados em bruto, ajudar o leitor a orientar-se nos assuntos da actualidade.
A especialização tem, no entanto, os seus escolhos. A serem evitados a todo o custo. Dominar uma área específica, como, por exemplo, a economia ou a informática, deve levar o profissional a explicar de forma acessível e autorizada os assuntos e não a exibir verborreia técnica ou maestria pedante. A sapiência pode ser posta ao serviço da simplicidade e da pertinência. Ao mesmo tempo, o profundo conhecimento de uma árvore não deverá impedir o jornalista de conhecer bem o resto da floresta.