Escuridão no deserto

Hélder Bastos, JN, 19 de Dezembro, 1998

Dez vez em quando, os clubes de futebol resolvem voltar aos saudosos tempos da infância brincando aos «blackouts» com os jornalistas. Quais meninos da birra, não prestam declarações, não concedem entrevistas e dão a volta ao bilhar grande quando vêm câmaras e microfones a chegar. De tão caricatos, os «blackouts» tornaram-se peça de alto recorte sociológico.

Substancialmente menos divertidos são os «blackouts» informativos a que os cidadãos de todo o mundo são sujeitos quando Clinton, à beira de precipícios presidenciais, resolve tirar uns «tomahawk» da cartola para oferecer a países esfomeados como prenda de Ramadão.

Clinton é um presidente divertidíssimo, prenhe de apurado sentido de humor. Toca saxofone, mente aos seus concidadãos, vibra verdadeiros golpes de catana no casamento, nega logo a seguir com acenos veementes em directo, chama peúga ao seu gato, faz da Sala Oval um motel e, símbolo supremo da sua jovialidade, joga à batalha naval com o Saddam sempre que os republicanos lhe provocam stress. Como se vê, postura conservadora é coisa que ele, definitivamente, não tem.

Aquando da Guerra do Golfo, os jornalistas fizeram, por entre actos de contrição, grande alarido por terem sido deixados à porta das batalhas pelos militares. Ficaram famosas aquelas lindas deixas dos profissionais de televisão: «algures no deserto, fulano de tal para o canal não sei quantos».

O cenário repete-se com a «Raposa do Deserto», nome de operação que mais parece o título de um conto de Andersen. Os jornalistas obtêm dos militares informação a conta-gotas e, perante a impossibilidade de confirmarem a veracidade da mesma, resta-lhes ou comer ou calar. Posição pouco dignificante, convenhamos. Quem paga por tabela são os cidadãos. Quando muito, têm direito a um verdadeiro monopólio de cobertura patrocinado por Ted Turner. Bombinha no céu de Bagdade sem logotipo da CNN no fundo do ecrã não é guerra coisa nenhuma. Os canais portugueses também sabem disso.

Todos se queixam. Os comentaristas e analistas confessam não perceber muito bem qual a ideia desta raposa no deserto e lamentam não ter mais dados concretos para sustento da opinião. Os políticos dividem-se, quanto mais não seja pelo receio que têm de que esta guerra seja mesmo por causa de um mísero duelo de saias.

Os jornalistas enfrentam, uma vez mais, o «blackout» a sério imposto pelos generais, que fazem os dirigentes desportivos parecerem meninos de coro no jogo do rato e do gato.

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