Faz hoje oito dias, o Comunicarte terminava assim: «Ela (a Internet) já começou a mudar as regras dos escândalos.» Os capítulos seguintes do alegado romance entre Bill Clinton e uma jovem ex-estagiária da Casa Branca vieram confirmar o papel relevante da rede mundial de computadores neste imbróglio presidencial.
O já chamado "Monicagate" ou "Pénisgate" de Clinton terá começado numa coluna de mexericos publicada em exclusivo na Internet por um ilustre desconhecido, Matt Drudge. Este internauta com queda para a bisbilhotice ouviu dizer que a respeitada revista "Newsweek" se preparava para lançar a bomba Lewinsky sobre o presidente. Não perdeu tempo. Carregou ele próprio no botão.
Drudge tinha à partida a seu favor várias coisas. Primeiro, a sorte de estar na era da rede, meio de comunicação de alcance planetário, instantâneo, anárquico, barato, diverso, extremo, de livre acesso, de todos e de ninguém. Na Net, qualquer utilizador pode armar-se em Drudge e escrever o que quiser, quando lhe apetecer.
Segundo, não teve de submeter o seu texto à apreciação de qualquer editor ou director, ao contrário do que acontece com os jornalistas dos meios de comunicação social tradicionais. Simplesmente redigiu e colocou o seu trabalho em linha sem dar cavaco a ninguém. Sem sofrer pressões externas. Um verdadeiro luxo de autonomia editorial.
Terceiro, não teve de se preocupar com questionamentos éticos ou enquadramentos deontológicos próprios do jornalismo profissional. Além disso, o "furo" de Drudge pôs em evidência algumas questões muito interessantes sob o ponto de vista da democratização da informação. E questiona desde logo o monopólio dos jornalistas, quer no processo de filtragem de notícias, quer no acesso a grandes audiências."Vocês não publicam a minha estória no vosso jornal? Não há problema, eu ponho-a na Internet". Provavelmente, os profissionais da informação vão começar a ouvir com frequência este tipo de desabafos.
Outro aspecto relevante neste episódio tem a ver com a cadência das notícias. Vimos diários, como o "Washington Post", remeterem os seus leitores para a edição do jornal na Internet, onde as últimas do "Monicagate" poderiam ser acompanhadas passo a passo e não apenas uma vez por dia. Trunfo precioso jogado em maré de escandaleira ao mais alto nível.