O meio dos extremos

Hélder Bastos, JN, 15 de Novembro, 1997

A Internet é um meio de extremos. Nasceu e cresceu ao sabor do risco, da experimentação sem limites, do puro gozo da expressão livre de qualquer tipo de censura exterior. Deu origem a culturas próprias bem como a hábitos específicos da comunicação mediada por computador à escala planetária. O choque frontal da Internet com a civilização que vive fora dela é inevitável. Como se viu com a discussão havida esta semana em Genebra. Numa conferência promovida pelas Nações Unidas foram debatidas maneiras de combater a difusão de mensagens de ódio de grupos extremistas no ciberespaço. Impor limites? Legislar? Punir? Como?

Hoje em dia, não passa pela cabeça de ninguém abrir jornais diários e apanhar com panfletos a toda a largura de página assinados por revisionistas simpatizantes de Hitler. Do mesmo modo, ninguém espera ver, no final do telejornal, tempo de antena protagonizado por homens encapuzados de branco gritando "viva o Ku Klux Klan!". Os meios de comunicação tradicionais, enraizados em sociedades que partilham determinados valores, conhecem bem os seus limites. Uma vez ultrapassados, dariam origem a sanções oficiais ou reprovações sociais.

Ora, na Internet tudo é completamente diferente neste capítulo. Cada um pode difundir aquilo que bem lhe apetecer. Não tem de pedir licença a nenhuma pessoa, chefe ou autoridade. O branco pode insultar livre e violentamente o negro e vice-versa. O gay pode desancar o heterossexual com todos os adjectivos rascas que encontrar no dicionário. O "skin" pode apelar ao extermínio dos povos africanos sem sofrer consequências. O etarra pode espalhar o boato de que o rei de Espanha afinal é espião ao serviço do Congo sem ser acusado de difamação. O membro da seita Aum pode explicar a quem o quiser ler, sem pagar nada, como fabricar gás sarin sem sair da garagem de casa.

Neste momento são praticamente nulas as hipóteses de alguém chamar à responsabilidade ou punir os signatários de todas estas mensagens. Em primeiro lugar, porque a capacidade de dissimulação na rede é muito elevada. O pseudónimo é moeda corrente. Apagar ou iludir a origem das mensagens é tarefa simples. Depois, porque caso as mensagens depositadas num computador sejam apagadas por alguém é extremamente fácil fazer cópias e distribuí-las por computadores ligados à Internet espalhados pelo mundo inteiro.

"É difícil, se não impossível, suprimir conteúdos na Web porque há muitas maneiras de escapar aos controlos", dizia, há dias, ao CNN Interactive, Eric Lee, membro de uma empresa fornecedora de serviços Internet. Lee alertou igualmente para os riscos deste género de empresas tomar a iniciativa de censurar conteúdos. Já houve quem o tentasse, em casos envolvendo pedofilia, por exemplo, e os resultados foram desastrosos para os empresários.

A tecnologia está, de facto, a mudar muito mais rapidamente do que a capacidade de resposta das autoridades e das leis. Dá-se o inevitável choque de culturas e procedimentos. Governos e governantes dizem: "Mas vocês cibernautas são loucos se pensam que a Internet pode funcionar à margem das regras da sociedade. Isso é anarquia." Os cibernautas respondem: "É isso mesmo. E depois? Vocês não são para aqui chamados."

É famosa no meio a declaração da independência do espaço cibernético de John Perry Barlow, co-fundador da Electronic Frontier Foundation e uma das figuras de referência do ciberespaço. Começa assim: "Governos do mundo industrial, vocês gigantes aborrecidos de carne e osso, eu venho do espaço cibernético, o novo lar da mente. Em nome do futuro, peço-vos a vocês do passado que nos deixem em paz. Vocês não são bem-vindos entre nós. Vocês não têm a independência que nos une."

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