O cinema em disco

Hélder Bastos, JN, 25 de Julho, 1998

Se um dia destes o leitor passar por uma boa loja de electrodomésticos repare bem na montra. Tem lá uma geringonça nova. Parece um leitor de discos compactos de música, mas não é. Trata-se de um leitor de discos compactos de cinema.

A novidade para o mercado de consumo caseiro chama-se DVD (Digital Video Disc) e, para os mais optimistas nestas coisas, vai acabar por substituir as nossas velhinhas cassetes de vídeo VHS que, como se sabe, têm uma fracota qualidade de reprodução. Os discos de vinil passaram à condição de velhas senhoras com a chegada dos CD. Muitos acreditam que vai acontecer o mesmo às cassetes de vídeo com a implantação do DVD. No fundo, trata-se, para o cinema em casa, de uma mudança praticamente inevitável a prazo: a passagem de um suporte analógico para um digital.

A qualidade de som e imagem do novo formato, aliada à possibilidade de se conservar os filmes, concertos ou documentários por muitos anos com a mesma qualidade inicial, é inegável. Será possível construir videotecas mais duradoiras e fiáveis. Mas, atenção: não dá para gravar nada nos DVD. Só podemos ver e ouvir o que lá está depositado.

O DVD é, de facto, uma promessa atraente. No entanto, há ainda muito para esclarecer em relação a este novo suporte, cuja entrada nos mercados tem sido atribulada quanto baste para deixar os consumidores na maior das confusões e hesitações.

Quem quiser, neste momento, comprar um leitor de DVD tem de pensar duas ou mais vezes antes de desembolsar cento e tal contos.

Primeiro, os filmes disponíveis neste formato contam-se, para já, pelos dedos das mãos. Nalgumas lojas de discos vemos pequenas montras de DVD enfeitadas com pouco mais de meia dúzia de títulos, a rondar os cinco contos cada.

Segundo, o novo disco, ao contrário dos CD de música, não é universal. Por causa do medo das cópias ilegais, foram criadas normas diferentes para diversas regiões do planeta. Donde, um filme em DVD norte-americano não "toca" num aparelho europeu.

Terceiro, os fabricantes parecem empenhados em baralhar os consumidores. A mais recente confusão tem a ver com o tipo de som possível de extrair dos DVD. Produzem-se formatos diferentes (com palavreado técnico a condizer, Dolby Surround, DTS, MPEG-2, AC3, etc.) e, depois, o consumidor que se mate a fazer a escolha acertada.

Já imaginou o que seria se os fabricantes de automóveis começassem a lançar no mercado máquinas movidas a combustíveis diferentes? Do género, uns a gasolina, outros a hidrogénio, outros a plutónio e uns tantos a néctar de papel reciclado?

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