Segunda-feira. A imprensa pinta títulos do género: «Não queremos cá mouros!». Não nas páginas de desporto, como seria mais apropriado, mas sim nas de política. Relatos de um fim-de-semana alucinado em Santo Tirso. Elevadíssima, esta campanha eleitoral. A sede da candidata Elisa Damião foi assaltada. Notícia interessante no «Público»: um programa de rádio, já de si chamado "Merda na Madrugada", da Super FM, gritou palavrões tão alto que acordou os moralistas da pátria. Ele foi queixas ao Instituto das Comunicações e beatos pedidos à Alta Autoridade. Finalmente, temos um Frank Zappa da rádio portuguesa. A RTP, entretanto, espalha-se ao comprido estreando o ecrã panorâmico. Lá longe, em Zurique, falou-se de jornalismo electrónico. Editores de jornais foram unânimes em concordar na aposta editorial na Internet.
Terça-feira. Título sugestivo no «DN»: «Pinto da Costa preocupado com factores estranhos». Talvez devido à nefanda influência da série televisiva «Ficheiros Secretos», na quarta-feira foi o que se viu. A campanha eleitoral continua a dar mostras da maturidade cívica e democrática à moda lusitana. Pancadaria na Figueira da Foz e queixinhas em conferências de imprensa. A RTP, pela segunda vez, expulsa o «Herman Enciclopédia» da noite por causa do futebol em directo. Deve ser por estas e por outras que cada vez mais pessoas aderem à TV Cabo e às parabólicas. Já não há pachorra para aturar o desvario dos canais portugueses. Manchete em «A Capital» anuncia a entrada em força da Igreja na campanha eleitoral: «D. Eurico contra gays e políticos». Nas páginas interiores, notícia sobre a aliança entre a SIC, IP e Mind para a montagem de um sítio na Internet onde será possível acompanhar as eleições em tempo real. Boa ideia. Na Croácia, 22 ministros decidiram processar um jornalista por este ter denunciado alegadas ligações daqueles à mafia. O rei da Tailândia fez 70 anos.
Quarta-feira. Mais queixas sobre a pobreza da campanha eleitoral e também sobre o estado da nossa indústria multimedia. Em Portugal, segundo o «Diário Económico», só 23% dos computadores pessoais têm leitor de CD-ROM. Pudera! A dez contos cada disquinho destes, quem se pode dar a este luxo? A Internet e os cartões de crédito são nova arma para os lavadores de dinheiro, relata a imprensa. Spielberg estreou o seu último filme nos Estados Unidos. Chama-se «Amistad». Antes da estreia, uma escritora lembrou-se de moer a cabeça ao realizador de «E.T.», acusando-o de plágio. No Porto, a fotografia encontrou um novo e belo espaço, a Cadeia da Relação. A noite acaba em beleza com Eric Clapton, calmo e acústico, na MTV.
Quinta-feira. A política aveirense entrou em força na era digital. Os candidatos fizeram um debate em directo na Internet no dia anterior. Foi a primeira vez em Portugal. Cinco anos depois de a Casa Branca se ter estreado na rede. As televisões mostram-nos o ministro-canivete-suíço Jorge Coelho na experiência de votar com cartão electrónico. Democracia electrónica em acção. A MTV europeia exibiu um vídeo da banda «Prodigy» com cenas pesadas de sexo, drogas e rock and roll. Bastou passar uma vez nos EUA para pôr histéricos os (muitos) conservadores de sebenta do outro lado do Atlântico. O filme incita à violência doméstica, queixaram-se. Definitivamente, os americanos ainda não viram na CNN a animação da nossa campanha autárquica. Na Europa, os relatos são cada vez mais profilácticos. «Governos europeus atiram-se à Internet». «União Europeia quer Internet mais segura». Um dia destes, Bruxelas vai acabar por dar origem a rasgos do género: «UE exige uso de preservativo na Internet». Por cá, o país quase caiu ao mar com o impacto da notícia. «Marcelo ameaça Guterres e irrita-se com Cavaco». Manoel de Oliveira já deve estar a pensar em fazer um filme à volta desta épica manifestação de valentia.
Sexta-feira. Dia de muita notícia e pouca uva. Os estudantes brilham nas primeiras páginas pelas piores razões. Estreia o filme «Em carne viva», de Pedro Almodovar. Uma lufada de cinema fresco no meio das cândidas estreias natalícias. O músico brasileiro Egberto Gismonti deixa aos leitores uma frase simples e bonita: «Para mim, liberdade é fazer o que se tem de fazer.» Enfim, numa escola de Gondomar o «Tal & Qual» descobriu vidros indonésios nas obras de uma escola. Há dias assim.