As notícias vindas a público sobre as prendas que a Portugal Telecom (PT) tem prontas para os próximos tempos parecem uma provocação destinada a pôr parte dos consumidores à beira de um ataque de fúria.
Primeiro, foi a notícia sobre a proposta da PT, empresa já de si obesa de lucros, no sentido de aumentar o preço das chamadas locais em quase 40%, segundo revelou o jornal "Público". A concretizar-se este aumento descabido, namorar ou conversar com os amigos da mesma cidade ou aldeia tornar-se-á substancialmente mais caro. Além disso, há um outro grupo de pessoas que será penalizado: os utilizadores da Internet.
Uma das maiores virtudes da Internet reside no facto de permitir aos cibernautas estarem em contacto com o mundo inteiro ao preço de chamada local. Como é fácil de ver, as grandes empresas de telecomunicações não gostam nada do truque. Enquanto isso, a PT já cobra das taxas mais elevadas da Europa, tornando quase um luxo para muita gente a utilização da rede mundial de computadores em Portugal. Pelos vistos, ainda não está satisfeita com o seu bonito serviço.
Há pessoas que, quando têm a infelicidade de entrar em depressão, comem, enfardam, deglutem insaciavelmente até não poderem mais. A PT também é um pouco assim. Anda deprimida há muitos anos. Provavelmente, a cura passará pela desejável liberalização total do sector e consequente entrada em palco de um factor muito importante: a concorrência. Esperemos é que não seja da EDP ou de outro mastodonte inoperante parecido. Infelizmente, as nossas excelsas autoridades fizeram todos os possíveis para retardar o fim do monopólio estatal da exploração da rede telefónica fixa, ao contrário da tendência observável nos restantes países da União Europeia. Ou não fossem as grandes empresas de telecomunicações autênticas "cash-cows" (vacas que dão dinheiro), na expressão acertada de Derrick de Kerckhove.
A maioria dos cidadãos está-se marimbando para eventuais jogadas de engorda e outras estratégias financeiras relacionadas com o processo de privatização da empresa. Quer é pagar preços decentes e justos, ser respeitada enquanto consumidora, ter serviços competentes e, acima de tudo, não ter de andar constantemente a dizer: "mas estes gajos estão a gozar comigo ou quê?"
É tenebroso vivermos num país onde existem monopólios absolutistas em serviços tão vitais como o telefone. Onde, até há bem pouco tempo, solicitar coisas tão elementares como facturação detalhada era considerado crime de abuso de cidadania. Onde não há alternativas, a não ser os telefones móveis.
Depois, foi outra notícia sobre o facto de a PT não tencionar facilitar a vida à maioria dos utilizadores portugueses da Internet, contrariando o estabelecido no Livro Verde para a Sociedade da Informação, aprovado este ano pelo Governo.
Segundo este livrinho, a PT deveria tratar de começar a cobrar menos aos utilizadores da Internet. Pois sim. Pelo menos nos próximos três anos, só os grandes consumidores, como as empresas, vão beneficiar de uma linha mais barata. Para os pequenos utilizadores, isto é, a maioria, fica tudo na mesma. Ou seja, caro. Deve ser por estas e por outras que o ministro da Ciência, Mariano Gago, se queixa de "entraves burocráticos inadmissíveis" no Estado quando se fala na tal Sociedade da Informação.
Resumindo: o Estado reconhece a importância estratégica das novas tecnologias no desenvolvimento social, político, económico e cultural do país. O governo assina por baixo. A PT acerta por cima.
Não há por aí alguém capaz de arranjar um anti-depressivo para a companhia dos telefones?