A casta da comunicação. A casta da informação. A casta da comutação. Para Léo Scheer, autor do livro «A democracia virtual», estes são os pilares da sociedade que se prepara para enfrentar o próximo século.
Em «A democracia virtual», publicado recentemente no nosso país pelas Edições Século XXI, Scheer, director do Observatório da Televisão francês, analisa, entre outros pontos, a actual crise dos sistemas políticos democráticos e a sua relação com o papel dos meios de comunicação social. Não poupa nem políticos nem jornalistas na sua argumentação.
À acção e mesmo compreensão dos políticos, refere, escapa muita coisa. Por exemplo, problemas como a miséria, o desemprego, a sida, a droga e a insegurança. Mais adiante afirma: «Os novos profissionais da coisa pública receiam ter de tomar decisões relativas a problemas sérios sob o olhar dos jornalistas e dos seus telespectadores, na mesma proporção em que o público se entedia por ter de os acompanhar nestes terrenos que passaram a ser demasiado áridos.» A ideia é perfeitamente aplicável ao panorama político-mediático português.
Com a chegada da era mediática, o jornalista ganhou notoriedade. Talvez demasiada. A ele se acabaram por vergar, em particular no campo da televisão, os poderosos de todas as categorias. Tomaram por dono de um jogo alguém que «não era mais do que um empregado.» O jornalista, «ao tornar-se celebrante de um verdadeiro mistério, construiu desta forma uma legitimidade, uma soberania que pode fazer abanar o político.» Na relação entre políticos e jornalistas, opina ainda o autor, subsistem enormes equívocos.
Numa abordagem que alguns considerarão porventura demasiado ousada, Scheer fala no erguer de uma sociedade virtual ao lado da versão real. Essa sociedade virtual emergente tem como espaço privilegiado as redes de computadores globais, as futuras auto-estradas da informação. O desenvolvimento destas, em particular a Internet, é aqui visto como potenciador de uma alteração na maneira como os cidadãos participam na vida democrática dos seus países, podendo vir a fazê-lo de forma mais directa e participada. Excesso de optimismo, dirão alguns.
No "mundo real" assistimos então, na óptica do autor de «A democracia virtual», ao desaire da ordem militar, confrontada com seus limites ideológicos impostos pelo triunfo do jogo da dissuasão. Já não precisa de combater. Basta ter armas para dissuadir o inimigo. Com a destruição mútua assegurada, todos passaram a pensar duas vezes antes de carregarem no gatilho.
A ordem da produção também entrou num processo involutivo que coincide com o seu triunfo aparente um pouco por todo o lado. «Ao mesmo tempo que se impõe por toda a parte como o único sistema económico viável, o capitalismo já não sabe o que há-de fazer com as suas raízes éticas.»
Os dias também não correm de feição para a ordem religiosa, que «tropeça no mundo moderno, científico e técnico, industrial e mediático.»
Com a instalação progressiva da sociedade virtual vemos três castas tomarem gradualmente o lugar destas forças em perda.
A casta da comunicação: É a ordem dos media e do audiovisual. «Ela ocupa o lugar da antiga função do sacerdote.» Cabe-lhe agora manter acesa a chama dos ídolos e das divindades. À volta do núcleo da televisão concentram-se cineastas, escritores, artistas, publicitários, relações públicas e outros comunicadores especializados.
A casta da informação: Toma o lugar do camponês ou do artesão. Conquistou o mundo através da informatização da economia, que espera alargar à sociedade. São os descendentes de gigantes como a Microsoft ou a IBM. Acreditam numa sociedade transcultural e global cujo começo se chama Internet.
A casta da comutação: Aqui, uma miríade de pessoas interconectadas agem, conversam, fazem compras, trocam ideias. Hoje, esta casta corresponderá à dos utilizadores das redes telemáticas globais, em particular aos internautas. Pelas mãos deles passará muito do desenho das democracias do próximo século.