Que os Estados Unidos são um país de fortes contradições, já todos o sabemos. Novidade mesmo é elas estarem hoje a ser gritadas, veloz e potentemente, aos quatro ventos. Os tímpanos do planeta começam a ressentir-se.
Duas notícias recentes ilustram a força contraditória das goelas dos «States». A primeira tem a ver com direitos humanos. A segunda, com pornografia.
A Amnistia Internacional resolveu lançar uma campanha para tirar de vez a máscara ao Tio Sam. O tal que se arvora em polícia do mundo, defensor da paz e promotor da democracia e que, em casa, dá porrada na mulher, frita o amante dela na cadeira eléctrica e chama a polícia para educar os filhos à bastonada.
Dá uma pena de morte ver a dupla Holbrooke e Albright apagando fogos pelo mundo inteiro enquanto, «back home», os polícias são brutos, os presos mal tratados, os refugiados considerados criminosos, as convenções internacionais ignoradas, as crianças vítimas de abusos, as mulheres espancadas, as armas lucrativas. «Back home», o Estado, em nome da lei, mata criminosos. Com que lata é que, depois, pode o Tio Sam vir à CNN pedir à China ou à Indonésia respeito pelos direitos humanos?
O congresso norte-americano, entretanto, resolveu, qual D. Quixote da era cibernética, voltar à carga no seu combate contra o acesso, por parte de crianças, a conteúdos pornográficos disponíveis na Internet.
Nesse sentido, aprovou algumas normas legais. Uma delas impõe às páginas comerciais da rede que ofereçam material «sensível» ou «indecente» a obrigatoriedade de identificarem a idade dos utilizadores. Através, por exemplo, dos dados dos cartões de crédito.
Ora, até aqui, tudo mais ou menos. A porca torce o rabo é quando se constata que foi o mesmíssimo Congresso a autorizar a difusão, na Internet, do celebérrimo relatório do procurador Starr sobre as ovalidades libidinosas do presidente Clinton. O documento, recorde-se, transborda de descrições pormenorizadas de actos sexuais. Conteúdo «indecente»? Impróprio para crianças? Certamente. Aliás, se dúvidas restassem sobre o talento de Starr para a prosa pornográfica, Larry Flynt, o rei das revistas porno, tratou de as desfazer, tecendo rasgados elogios ao rato de sacristia do partido republicano.
Como diria um colega meu, por sinal norte-americano: «Diz lá se isto é ou não um grande país?»