Algumas pessoas caminham sobre a água
Algumas pessoas caminham sobre vidros partidos
Algumas caminham à volta dos seus sonhos
Algumas apenas continuam a cair. Laurie Anderson
Sexo. Desporto. Trabalho. Comida. Compras. Internet? Já todos sabíamos que não faltam por aí pessoas matando-se a trabalhar, a comer, a correr, a copular e mesmo a comprar. Mas o século vinte ainda não estava satisfeito. Tinha de terminar em grande estilo. E acabou por arranjar mais uma maneira de se aproveitar das fraquezas do homo sapiens da classe média-alta: grudou-o ao computador até os neurónios quebrarem.
Os viciados compulsivos na Internet são o último grito das «dependências invisíveis» da vida actual. Os psicólogos vêem cada vez mais gente entrar nos seus consultórios com distúrbios causados pelo excesso de horas passadas em frente ao computador, a falar, desabafar, namorar, jogar, refilar, insultar. Com outras pessoas que povoam o ciberespaço a fazerem o mesmo. Interagindo e comunicando. Excessivamente.
Há utilizadores de tal forma apanhados pela rede mundial de computadores que passam mais de oitenta horas por semana lá metidos. Entram impulsivamente pelas madrugadas em linha com o resto do mundo. No dia seguinte, o trabalho rende menos. A família tem menos atenção. E por aí adiante.
A teclar a teclar, oito milhões de pessoas espalhadas pelo mundo inteiro já serão viciadas a sério no consumo de Internet, segundo um estudo citado recentemente pelo "El País". Chegou-se à conclusão de que preferem a rede ao contacto directo com outros para construírem as suas relações sentimentais e de amizade.
Este é um dos aspectos mais significativos em relação à nova dependência. Ao contrário do que muitos pensam, as pessoas conseguem de facto exprimir-se e comunicar através do computador, tal como o fazem através do telefone. A comunicação mediada por computador existe e não é coisa tão fria e técnica como possa parecer à primeira vista.
Há muita gente que afirma na Internet, muitas vezes sob a capa protectora do pseudónimo, aquilo que jamais dirá a alguém face a face. Nem mesmo ao psicólogo. É uma espécie de confessionário internacional ao domicílio. Há sempre alguém invisível do outro lado do ecrã disposto a ouvir tudo e a responder, vinte e quatro horas por dia.
Os padres, definitivamente, arranjaram nova concorrência.