Cinema digital

Hélder Bastos, JN, 28 de Novembro, 1998

É caso para dizer que os filmes já não são o que eram. O casamento entre os computadores e o cinema veio mudar muitas das regras do jogo. Hoje, nós, os espectadores, já não conseguimos distinguir bem entre imagens reais e digitais quando vemos certos filmes.

Os truques utilizados no histórico «Ben Hur» parecem brincadeiras de miúdos quando comparados com os efeitos actualmente conseguidos com as imagens geradas por computador. Em produções como «Forrest Gump», «Parque Jurássico», «Apollo 13», «Exterminador» e centenas de outras, o grau de sofisticação é tal que nos esquecemos de que os dinossauros são fabricados ao teclado e os cenários resultam da conjugação do talento do realizador e da eficácia do técnico da computação gráfica.

Para alguns estudiosos da matéria, as ferramentas digitais constituem o maior salto tecnológico da Sétima Arte desde o aparecimento do cinema sonoro. Elas não se limitarão a enfeitar certas cenas. Terão um grande impacto na própria estrutura dos filmes, na sua estética e mesmo no seu significado. «Uma nova forma de cinema está a nascer e Cinema Digital é o seu nome», escreve Roger Wyatt na revista electrónica «Tech Head Stories».

Ora, apesar disto, estamos hoje a assistir apenas às primeiras manifestações substanciais do cinema digital. O que nos espera neste campo escapa ainda à nossa imaginação. No entanto, adivinham-se algumas tendências, como se diz na moda, para as épocas do próximo século.

Frequentemente, vamos passar a dar de caras com actores virtuais, ou seja, que não existem na realidade, cenários integralmente construídos em computador, novos truques de animação e mesmo, como refere Wyatt, com «cinema cubista» (o que quer que isso seja...).

Para a indústria cinematográfica, em particular para Hollywood, as repercussões do cinema digital são enormes, quanto mais não seja por razões financeiras: um actor virtual fica bastante mais barato do que um de carne e osso. Além disso, os realizadores poderão levar a sua imaginação a lugares dantes impensáveis.

Para os espectadores, as implicações serão menos óbvias, pois, face à eficácia visual das imagens geradas por computador, ser-lhes-á cada vez mais difícil identificar na tela o material realmente captado pela câmara e o gerado pela linguagem binária.

Separar o «real» do «virtual» será tarefa cada vez mais complicada para os cinéfilos.

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