A comunicação social fala no ciberespaço quase diariamente. Esta semana foi mesmo manchete em alguns jornais portugueses. O facto de a página do governo na Internet ter desaparecido por uns dias, devido a turras desnecessárias, e a notícia de que Mário Soares colocou na rede um enorme arquivo documental ligado à história recente de Portugal são apenas dois exemplos. A discussão do chamado Livro Verde para a Sociedade da Informação deu também origem a diversas notícias na imprensa.
O ciberespaço está a tornar-se uma questão incontornável nas sociedades modernas. Todos o evocam para discutir problemas com consequências sociais, políticas e económicas muito palpáveis, como o acesso livre a pornografia, direitos de autor, comércio digital, liberdade de expressão, pirataria informática, teletrabalho, educação à distância, etc. Mas o que significa ao certo este estranho termo? Os mais atentos ao fenómeno estão, antes de mais nada, conscientes da dificuldade em defini-lo.
O prefixo cyber, traduzido para português como ciber, deriva do grego e significa "pilotar". A invenção do termo "cyberspace", no entanto, é atribuída ao escritor de ficção científica William Gibson, que o utilizou pela primeira vez no seu romance "Neuromancer", lançado em 1984. Gibson é hoje figura de referência da era digital. Para ele, o ciberespaço é uma "alucinação consensual", espaço não físico composto por um conjunto de redes de computadores através das quais todas as informações, de toda a forma e feitio, circulam.
O ciberespaço é hoje entendido à luz de duas perspectivas: como o lugar onde estamos quando entramos num ambiente virtual e como o conjunto de redes de computadores, interligadas ou não, espalhadas pelo planeta. Para André Lemos, professor da Universidade Federal da Bahia, estamos a caminhar para uma interligação destas duas concepções, pois tudo indica que as redes cada vez mais se vão interligar.
O ciberespaço não é uma entidade física concreta, palpável. É um espaço imaginário, mundo invisível para além do computador ligado à rede. Tal como sublinha Lemos, mesmo sem ser uma entidade física concreta, o ciberespaço constitui-se em espaço intermediário. Ele não é desligado da realidade. É, pelo contrário, parte fundamental da cultura contemporânea. Outro atributo do ciberespaço é a sua transnacionalidade. Ele não conhece fronteiras físicas. Os bits, essas unidades mínimas da comunicação telemática viajando à velocidade da luz, circulam de país em país sem apresentarem qualquer passaporte nem pagarem direitos alfandegários.
Por estas e outras razões, alguns autores, como Tom Koch, consideram absurdo falar-se em conceitos como "auto-estradas da informação." Uma auto-estrada implica deslocarmo-nos no espaço de um ponto para outro. Quando vamos do Porto para Lisboa temos de nos mover 300 quilómetros no espaço e três ou quatro horas no tempo (se formos de carro ou comboio). No ciberespaço isso não acontece.
Levamos praticamente o mesmo tempo a aceder a uma base de dados em Lisboa, Tóquio, Joanesburgo, São Paulo, Paris ou Los Angeles. É como se todas estas metrópoles estivessem à distância do ecrã do nosso computador. Se em cada uma destas cidades estiver uma pessoa ligada à Internet a participar num grupo de conversação em tempo real, a distância espacio-temporal entre eles não existe. Daí a magia do ciberespaço, a dificuldade em defini-lo ou simplesmente compreendê-lo. Ele é construído pela nossa imaginação. E, sendo assim, haverá um ciberespaço para cada imaginário.