O americano tranquilo

Hélder Bastos, JN, 28 de Maio, 1994
O jornalista e polemista Antero de Quental dizia que os jornalistas eram "bonzos". Os editores dos jornais uns "bárbaros". E a opinião pública um "monstro moderno" que se exprime através da Imprensa. Se Antero e o professor americano Noam Chomsky tivessem vivido no mesmo tempo e no mesmo país talvez pudessem ter sido sido bons amigos.

Têm em comum, pelo menos, o gosto apurado em desancar o jornalismo e uma preocupação aguda com tudo o que diz respeito à opinião pública. Um foi polémico quanto baste. O outro, por onde passa, deixa toda a gente a cacarejar discussões.

Foi o que aconteceu na passada quarta-feira, em Lisboa. Noam Chomsky, linguista, filósofo, professor do prestigiado Massachusetts Institute of Tecnology, autor de vários livros, anarquista ou "socialista libertário", veio expor as suas ideias sobre a política e os "media".

Tal como tem acontecido no seu país de origem, Chomsky conseguiu pôr políticos e jornalistas convidados para o debate a dizer que discordavam de quase tudo o que tinha dito. Ou que as suas ideias eram bizarras. Que ideias radicais fazem deste homem uma pedra no sapato dos políticos, da política, dos jornalistas, dos meios de comunicação social do seu país e não só?

Uma delas resume-se nesta frase: "O pior terrorismo vem de Washington. Se as regras do julgamento de Nuremberga estivessem em vigor, todos os presidentes americanos do pós-guerra teriam de ser enforcados".

Quanto à Imprensa, Chomsky diz que não acredita que os jornalistas norte-americanos sejam isentos nem que os jornais sejam independentes dos poderes político e económico.

Há muitos anos que este filósofo segue à lupa diários tão importantes como o The New York Times ou o Washington Post. E chegou à conclusão que ambos são manipulados à vontade pelos espertos da Casa Branca ou do Pentágono.

Em 1988, Chomsky apresentou uma série de comunicações no Canadá a propósito do papel que os "media" têm nas democracias capitalistas. A série veio a dar origem a um livro intitulado "Necessary Illusions" (Ilusões Necessárias), em que o autor fala do controlo do pensamento nas sociedades democráticas.

O argumento que defende é o de que, longe de ser vigilante, a Imprensa dita "livre" apenas serve as necessidades daqueles que estão no poder.

Chomsky diz que os que ocupam posições de chefia nos meios de comunicação pertencem às mesmas elites privilegiadas dos políticos ou dos empresários, por exemplo. Por isso, acrescenta, é de esperar que partilhem as mesmas aspirações e atitudes, acabando por reflectir as ideias dessas mesmas elites.

Os jornalistas que entram neste sistema têm duas hipóteses: ou se conformam com as "pressões ideológicas" do meio em que trabalham ou não se conformam e são postos na prateleira ou no olho da rua.

Para o filósofo, esta é uma nova forma de censura nas sociedades democráticas em que o controlo da informação é feito não directamente pelo Estado, mas por um grupo privilegiado de influência que "interioriza os valores e os conceitos das classes dominantes".

À margem de tudo isto fica a maioria dos cidadãos, reduzidos à condição de meros espectadores de um jogo rasteiro e obscuro de interesses que pouco ou nada lhes diz respeito ou chama a atenção.

É natural que ideias deste alcance ponham em franja os nervos de muitos políticos e jornalistas norte-americanos e daqueles que Chomsky encontra pela frente por esse mundo fora.

O seu lema "dizer a verdade, expor a mentira", que o leva a falar e escrever, há vários anos, sobre Timor-Leste, tem-lhe custado alguns dissabores. Mas, enquanto jornais e televisões o vão desprezando, os cidadãos vão enchendo as salas para ouvir as suas ideias. Bizarro?

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