Publicidade chata

Hélder Bastos, JN, 14 de Março, 1998

Ainda por aí à solta um ruído quase tão mau como o dos travões ferrugentos dos autocarros da cidade do Porto: o ruído publicitário.

O chinfrim começa logo pela manhã. Chegamos à caixa do correio e temos a estranha sensação de ela estar cada vez mais papeluda. Os hipermercados cantam-nos virtualidades neoliberais, do género "preços mais baixo não há!". Pizzarias de motoreta ao domicílio tentam-nos com brindes e descontos e queijo à discrição. As lojas de computadores fazem o que podem com folhetos multicolores. Valha-nos o ministro Sócrates. Agora, é proibido engordar caixas de correio sem autorização do dono. Mais uns passinhos.

Chegamos ao carro. Quando não temos multa, temos folheto de graça no pára-brisas. É uma loja de sofás. Nova florista na cidade. Um astrólogo à procura de clientela. Outro espiritista iluminado para nos resolver as maleitas do presente e as desgraças do futuro. Abriu restaurante. Coisa fina e económica.

Paramos no semáforo. A rádio abranda à hora certa para as últimas notícias, não sem antes nos massajar os tímpanos com dez minutos de alegres e joviais anúncios. Aí vem uma cachopa promocional com montes de T2 e T3 duplex de luxo na mão para nos entregar de bandeja, chave na mão.

Entre o estacionamento e o emprego, há sempre almas simpáticas distribuindo gratuitamente papéis para isto e para aquilo. Sondando a torto a direito. "O que pensa sobre a saúde em Portugal?" É melhor nem falar.

No emprego. Agora a moda é o "email". Abre-se o mágico correio papa-léguas e eis que nos aparecem duas meninas da Califórnia fazendo-nos um convite, naturalmente desinteressado, para que visitemos a sua nua página na Internet.

Chegamos a casa depois de mais uma jornada. A televisão oferece-nos boas séries para retempero dos neurónios, sim senhor. Mas alguém tem de as pagar, não é? Vai daí, cinco minutos de série, oito de publicidade. E sempre os mesmos anúncios. Repetidos, repetidos, repetidos. E mais uma vez repetidos. Não vá as pessoas não terem percebido a mensagem nas oito vezes anteriores.

Há tempos, um especialista em publicidade questionava, num artigo de jornal, a eficácia do constante matraquear publicitário, sobretudo na televisão. Pregar anúncios na cabeça das pessoas até não haver mais pregos ajudará mesmo a vender produtos? Ou levará as pessoas simplesmente a mudarem de canal por manifesta falta de pachorra?

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