Cerco à Internet

Hélder Bastos, JN, 29 de Março, 1997
A Internet livre, espontânea e anárquica era demasiado boa para ser verdade. O seu crescimento meteórico está a atrair toda a espécie de narizes com faro apurado para cifrões e a acirrar países com alergia à estroinice do novo medium.

Esta semana, jornalistas de vários países, reunidos num congresso internacional de imprensa, em Granada, aprovaram uma resolução na qual expressam os seus receios relativamente às tentativas de controlo de novos meios, em particular a Internet. A assembleia geral do Instituto Internacional da Imprensa defendeu uma ideia simples: deve ser aplicada à maior rede de redes de computadores do mundo a mesma liberdade dos meios de comunicação social tradicionais. Além disso, pelo facto de a Internet permitir informar para além de qualquer fronteira, aquela liberdade deveria ser fomentada e não criticada, por parte, quer dos países ricos, quer dos países em desenvolvimento.

Como é fácil de ver, as críticas daquele instituto dirigem-se também aos Estados Unidos, onde anda quente a discussão à volta do já célebre Communications Decency Act, agora nas mãos dos juízes do Supremo Tribunal norte-americano. A propósito deste projecto legal, o último número da revista "Newsweek" traz um artigo com o sugestivo título "U.S. v. the Internet" (Estados Unidos versus Internet). A preocupação principal dos legisladores no meio desta polémica, recorde-se, reside no facto de as crianças terem livre acesso a conteúdos considerados "indecentes". O desfecho está para breve.

A Internet, no entanto, não está a ser apertada apenas pelo lado das leis, bastante duras em países como a China, por exemplo. A força do dinheiro começa gradualmente a impor-se no ciberespaço, tomando como modelo a televisão comercial, máquina aperfeiçoadíssima na arte de vender audiências a anunciantes.

Nas últimas semanas, várias jornais e revistas, desde o "Monde Diplomatique" à "Wired", têm publicado artigos onde são colocadas questões ligadas ao fenómeno da crescente e, tudo indica, imparável mercantilização da rede. O potencial poder de compra dos cerca de 50 milhões de cibernautas não tem, de todo, passado ao lado das empresas ligadas aos mais variados negócios.

Hoje pode ver-se com alguma nitidez que o modelo da televisão está a ganhar terreno no ciberespaço, em particular na World Wide Web (WWW), a parte multimedia e mais frequentada da teia planetária de computadores. Ainda de forma algo tosca, alguns canais de TV colocam na rede parte das suas emissões. Em certos países, são lançados no mercado máquinas que permitem "surfar" na Web através do televisor. Fabricantes de televisores e de computadores começam a dar palmadas nas costas uns dos outros, como se tem visto no capítulo da televisão digital.

Esta convergência, ou colisão, como preferem alguns especialistas, acabará por impor um modelo comercial à Web? Iremos assistir a um progressivo apagamento da interactividade, um dos maiores trunfos de sempre da Internet? Iremos passar a assistir à Internet em vez de a utilizar? Será que vamos passar a falar de ciberespectadores em vez de utilizadores?

Dan Schiller, professor de comunicação na Universidade de San Diego, receia bem que tudo possa acabar por se concretizar. "Por um lado, os serviços push (incitando à passividade do espectador) vão reduzir a utilização da Internet a uma atitude passiva semelhante à utilização normal da televisão. Por outro lado, as tentativas de dinamização da Internet, colocando a tónica num envolvimento mais activo do utilizador, serão limitadas pela necessidade de obedecer às exigências dos anunciantes." ("Le Monde Diplomatique", Março de 1997).

A mercantilização da Internet tem um pouco de tudo. Era previsível. Parece inevitável. Está em curso. E será interessante ver onde vai parar.

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