Se hoje lhe batessem à porta para lhe anunciar que o motor do seu automóvel acabado de sair do stand vai gripar dentro de dois anos você entraria em pânico. Ou pelos menos ficaria bastante preocupado. Certo? Felizmente, os motores dos carros não correm este risco. O mesmo não se pode dizer dos computadores.
Se não forem tomadas as medidas apropriadas, os ponteiros dos relógios de dezenas de milhões de computadores espalhados pelo planeta vão destrambelhar por completo no primeiro segundo do dia 1 de Janeiro do ano 2000, pois darão um salto de cem anos no tempo, recuando até 1900. O calendário interno das máquinas vai mesmo desatinar. Porque, na passagem do século, os computadores só mudam os dois últimos dígitos de 1999, mantendo-se mudo e quieto o 19. Resultado: lá vamos nós para 1900. Tudo se deve ao facto de os computadores trabalharem, por motivos de economia de espaço e de recursos, com linguagem binária, no caso, zeros e uns. É assim desde os primórdios da computação.
Os técnicos já arranjaram nome próprio para esta preocupante disfunção informática. Trata-se do «bug» (bicho) do ano 2000. Não se pense que este bicho é animal para dar cabo da cabeça apenas a engenheiros, programadores ou piratas da disquete. Desempregados, reformados, estudantes, doentes, empresários estão todos na mira da avaria cronológica. Todos eles dependem de alguma forma do bom funcionamento de complexos sistemas informáticos.
Por exemplo, ninguém imagina um batalhão de contabilistas enfiados num prédio qualquer do Terreiro do Paço a, todos os meses, verificar uma a uma milhões de pensões a atribuir aos idosos de Portugal inteiro. Isso está entregue aos computadores, que se encarregam de fazer o processamento automático a certos dias e horas do mês. Ora, para nada falhar é importante saberem em que dia do ano estão. Agora, imagine o pânico das pobres máquinas quando se virem de repente no ano da morte de Eça, Nobre, Wilde e Nietzche, do primeiro voo experimental de um zepelim e do assassínio de Humberto I de Itália por um anarquista.
A questão do bicho do ano 2000, como bem realçou no Diário Económico o consultor de Tecnologias da Informação Peter Wallace, já não é meramente um assunto técnico. Não. É algo susceptível de afectar de forma directa a vida de milhões de pessoas, das mais variadas maneiras e nas mais diversas profissões.
Só os mais distraídos ainda não se aperceberam da ferocidade do bicho. No pelotão da frente dos agentes a leste do insecto digital estão os governos europeus, fortemente criticados pela sua apatia num recente simpósio de especialistas, o ITxpo97, organizado em Cannes.
Às administrações públicas foi apontado o dedo pela falta de flexibilidade e agilidade em relação ao problema. Não consideram o caso como sendo prioritário. Não criam equipas próprias para exterminarem o bicho a tempo e horas. Não falam do assunto e preferem substimá-lo. Nos Estados Unidos, pelo contrário, o Congresso e o Senado já tomaram medidas e acompanham a par e passo o combate no terreno. As empresas privadas norte-americanas e europeias também estão já a fazer pela vida.
Está na hora de a Europa burocrática acordar de vez para os desafios e problemas inerentes à era digital emergente. Se continuar a insistir na sua atitude algo sobranceira, lenta e despreocupada em relação às novas tecnologias corre o risco de passar as próximas décadas a reboque do esperto Tio Sam.