Anúncios com graça

Hélder Bastos, JN, 5 de Dezembro, 1998

Era uma daquelas manhãs de se andar com um leve friozinho nos olhos. Chove, miúdo, na Foz do Douro. Um café. Pousado no balcão, virado para o mar, o jornal do dia. Um empregado vira-se para o colega e aquece a conversa: «Ouve, já não é preciso comprar a Playboy. Isto é melhor que a Playboy!».

O diário estava de páginas abertas nos anúncios. Mais precisamente, na parte do «relax», que é como quem diz, da descontracção. Relaxada até dizer chega, uma formosa donzela, com a perfeita noção do seu apurado coeficiente aerodinâmico, afirma, a cores, o que todos estamos bem a ver: «Bem boa».

Em contraste com esta foto forte, temos ao lado, evidenciando clara desvantagem competitiva, pequenos anúncios cinzentos. A «viúva louca na cama», da Boavista, perde nitidamente, em termos de captação do olhar, para aquela louraça substancial, tipo Pamela Anderson, que pergunta, provocante, a toda a largura de três colunas: «Queres mais?» Para já não falar da Gina que, no mesmo tom interrogativo, convida, quase pelada: «Queres ouvir a minha música...?» Um primor de riqueza sugestiva estas reticências insinuantes a seguir à última palavra...

Ora, se repararmos com a devida atenção, como fez o empregado do café, a parte descontraída dos jornais tem, indiscutivelmente, vindo a aumentar de qualidade nos últimos tempos, tanto na vertente textual como na fotográfica. As frases são curtas, trabalhadas, incisivas, musicais. Tal como na publicidade. «Boca louca Suzi-Maia», «100 por cento acção total» (parece o «spot» de um banco), «Casada e sem prazer, adoro sexo oral!», «Canzana e 69 é fogo!». Em tom mais contido há, por exemplo, a «Lesbianamente tua» ou a «A ratinha vibradora».

O apuramento gráfico das meninas e rapazes de papel não fica atrás. Desde logo, por causa da cor. Os vermelhos e negros assaltam, sem piedade, os olhos do leitor vindo do cinza sóbrio da notícia. O desassombro da pose e do verbo mostra, por outro lado, que os tempos estão a mudar, numa dinâmica sociológica que implica a sociedade, em geral, e os media, em particular.

A atitude em relação ao anúncio público do sexo é hoje mais relaxada e tolerante e menos beata e envergonhada.

Parafraseando os economistas, ora aqui está um bom indicador.

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