A tinta que não pinta

Hélder Bastos, JN, 31 de Maio, 1997
Os jornais electrónicos vão acabar com os jornais de papel? Esta pergunta é feita sempre que se fala no futuro da imprensa. E agora não se fala noutra coisa. Mas a questão talvez não seja essa. Talvez se devesse antes perguntar: a tinta digital vai acabar por substituir a tinta dos nossos livros e jornais de hoje?

A tinta corre em todo o lado. Nos livros, revistas, jornais, camisolas, montras, discos, automóveis, casas, azulejos, computadores. Mas, e se houvesse por aí um professor Pardal capaz de pôr os neurónios a ferver de modo a inventar algo que a substituísse? Uma invenção revolucionária para colocar donos de editoras de livros e proprietários de jornais à beira de um ataque de nervos? A resposta é: já há.

Tem 31 anos. Chama-se Joe Jacobson. Trabalha no famoso laboratório de media do Instituto de Tecnologia do Massachusetts (MIT), conhecido pelas suas investigações no campo das formas de comunicação do futuro, e já registou a patente do que chama tinta digital.

Jacobson, capaz de fazer com os computadores o mesmo que Jimi Hendrix fazia com as guitarras, considera que as actuais formas de produção e distribuição de texto impresso são muito pouco flexíveis, para não dizer antiquadas. O papel é feito a partir das árvores de uma forma que até os antigos egípcios entenderiam. E depois é bastante desperdiçado. Grandes quantidades de jornais e de livros têm como destino final o lixo, por terem ficado por vender.

Apesar disso, o papel sobrevive, não obstante andarem a falar na sua morte de há 20 anos para cá. Ele continua a apresentar variadíssimas vantagens: pode ser lido em qualquer lado, é fácil de transportar, é barato, cansa menos do que o ecrã do computador e se cair ao chão não se desfaz em mil pedaços.

Tudo bem, responde Jacobson. Mas e agora se se fosse capaz de inventar um dispositivo tão fino como uma folha de papel? Algo preparado para armazenar electronicamente enormes quantidades de dados, ser bastante portátil e infinitamente reutilizável? Um suporte para onde fosse possível canalizar textos e imagens a partir de qualquer fonte digital, como, por exemplo, a Internet, a biblioteca local ou mesmo o computador pessoal?

A imaginação do investigador do MIT, no entanto, não se fica por aqui. Jacobson concebe um livro electrónico feito a partir da junção de centenas de páginas daquele tipo. O resultado não seria qualquer espécie de calhamaço saído da "Guerra das Estrelas", mas sim um livro leve, sem grandes semelhanças com um computador portátil, apesar de ter também uma pequena unidade de processamento central. Poderia ser lido na praia ou no WC, algo muito complicado de fazer com qualquer computador actual.

Uma das características mais interessantes deste livro de tinta digital, ou seja, escrito na linguagem dos computadores, é permitir a troca de conteúdos. Depois de ler "Hamlet", o leitor pode apagar todos os capítulos e em seguida descarregar para o mesmo espaço "Parque Jurássico" ou "Para acabar de vez com a cultura". Hoje fazemos o mesmo com as cassetes de vídeo. Podemos desgravar um filme de Orson Welles e gravar por cima um concerto dos Madredeus ou um documentário de Carl Sagan.

Agora imagine-se o conceito de tinta digital aplicado aos jornais. Em vez de irmos ao quiosque comprar um exemplar de papel todos os dias, bastaria comprarmos, uma só vez, um jornal com as tais folhas digitais tão finas como o papel. Essas páginas poderiam ser depois actualizadas quando o leitor quisesse. Bastaria fazer uma ligação à sede do jornal ou à Internet.

Jacobson acredita que o papel electrónico poderá vir a substituir uma larga porção dos actuais livros e jornais, para já não falar nos computadores portáteis e nas impressoras. Mas, como qualquer boa ideia, terá ainda de passar da fase de protótipo e, mais tarde, pela aceitação ou rejeição por parte do mercado, o juiz supremo.

Quem julgar que as experiências de Jacobson e companhia não passam de meros devaneios engendrados por cyberpunks alienados está enganado. O projecto da tinta digital do MIT é em parte financiado por um consórcio formado por 41 empresas importantes. As gigantes mundiais Microsoft e Compaq estão incluídas. Não vá o futuro tecê-las... 1

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