Interrupção voluntária do Windows 95

Hélder Bastos, JN, 27 de Junho, 1998

O que é que Bill Gates e Deus têm em comum? A crença nas virtualidades da máxima «crescei e multiplicai-vos». Com a diferença de que Deus não percebe nada de computadores.

Bill Gates, à semelhança do Tio Patinhas, toma banho diário na caixa forte do seu palácio de Seattle atirando-se da prancha para uma piscina a transbordar de milhões de dólares. Mas isso não lhe chega. Para manter o seu império informático ele tem de fazer como os tubarões: manter-se em constante movimento de forma a não sucumbir.

Aí está o Windows 98, acabadinho de apresentar. Para os amantes da computação profissional ou amadora, o novo sistema operativo é sinónimo de mais um punhado de truques e malabarismos - nada de especial - possíveis de fazer com o rato e com as janelas viradas para o ciberespaço.

Para o cidadão comum, aquele para quem o computador se reduz a mera ferramenta de trabalho, porque tem mesmo que ser e não há volta a dar-lhe, significa acrescidas dores de cabeça, necessidade de aspirinas e uns contos pela borda fora. Ou, ainda, umas noitadas valentes praguejando contra o livro de instruções da instalação do novo software.

Ora, antes de lançar estes novos foguetes na forma de zeros e uns, o sr. Bill Gates deveria, à cautela, ter feito um referendo à população mundial. De forma a apurar a sensibilidade do mundo real relativamente a esta matéria. E contribuir para que intelectuais reputados como Chomsky não voltem a chamar-lhe «parasita inteligente».

A pergunta a aparecer nos boletins de voto poderia ser mais ou menos a seguinte: concorda com a interrupção voluntária do Windows 95, se realizada, por opção da Microsoft, quando lhe der na real gana, em estabelecimento de informática legalmente autorizado?

É crível que, depois de batalhas mediáticas entre conservadores e progressistas travadas em directo na CNN, o «não» obtivesse vitória esmagadora. O povo não está para queimar neurónios nem para oferecer, de bandeja, quase 900 milhões de contos ao homem mais rico do mundo a troco de umas cócegas no disco duro dos seus computadores.

Os Beatles, pela voz de John Lennon, gabavam-se de serem mais famosos que Deus. Gates pode gabar-se de ter dinheiro suficiente para comprar um lugar no céu.

1

Hosted by www.Geocities.ws