O ridículo não mata

Hélder Bastos, JN, 14 de Novembro, 1998

«O meu cérebro dói-me».
John Cleese

O que nos mostra de interessante o ridículo episódio Santana Lopes-João Baião? Que há políticos com défice de sentido de humor e comediantes que não aguentam com uns copos.

Primeiro andamento: entra-nos casa adentro um político com o ar gravíssimo de quem vai pedir a capitulação do governo ou a dissolução da Assembleia da República. Não, nada disso, para alívio da nação.

Afinal, Santana Lopes, «enfant terrible» (criança terrível, em português) do PSD, chamara a si os microfones para anunciar ao povo: ou ele ou eu. Ele, ao contrário do que seria de esperar, não era Marcelo nem Durão. Muito menos Roquete. Era simplesmente Baião, João Baião.

O febril actor das noites de sábado da SIC, com provas dadas no teatro de revista, havia indisposto o político das páginas «jet-set» de revistas mundanas com uma rábula na qual se fazia o retrato tosco e bruto de «Santana Copos», personagem femeeira, noctívaga e de farta prole. Santana Lopes, o verdadeiro, sentiu os calos pisados pelo homem do «Big Show» e resolveu pedir socorro à República.

Segundo andamento: a SIC, num telejornal, decide repetir a afamada paródia, promovida a assunto mediático de Estado. Quem não assistiu ao «show» de aeróbica de João Baião fica estupefacto. Lopes, o experimentado político, o herdeiro de Sá Carneiro, o ex-dirigente desportivo, o ex-director de revista snobe, o actual colunista e bom conhecedor das manhas da comunicação social, tinha feito tanto barulho por causa deste menos que zero humorístico absoluto? Algo bate mal em tamanha desproporção.

O número «Santana Copos» é tão mau que nem devia merecer comentários. E não é que o principal visado tratou de espalhar megafones pelo país inteiro debitando, alto e bom som, a sua própria caricatura?

Este caso vem pôr em relevo uma grave deficiência cultural da sociedade portuguesa: a falta de sentido de humor. Os cómicos da televisão, quase todos, continuam a fazer um humor chato e bafiento, invariavelmente assente em paupérrimos textos. Que saudades do Mário Viegas! Os políticos, quase todos, levam-se demasiado a sério nas asneiras que fazem. E depois acabam por não saber rir de si próprios. Baião ia cavar terra e Lopes emigrava para a Suíça se por aí aparecessem uns bons «Monty Python» à portuguesa.

1

Hosted by www.Geocities.ws