Imagine um simples carro capaz de dar a volta ao mundo em poucos segundos. Impossível? A empresa de computadores IBM quer provar que não. O protótipo do novo automóvel foi apresentado na recente feira da indústria informática Comdex, em Las Vegas.
O chamado "Veículo da rede" é capaz de "surfar" na Internet, receber e enviar correio electrónico e pedir ajuda para se orientar nas estradas. É isto que consegue fazer à velocidade da luz nas auto-estradas da informação. No alcatrão, como é óbvio, andará tanto como os outros...
Lá dentro, no entanto, tudo será diferente. O condutor poderá, a qualquer altura, dar instruções de voz ao computador de bordo para que este leia em "voz" alta as mensagens electrónicas vindas de qualquer ponto do planeta. Se o automobilista quiser saber onde fica o hotel mais próximo ou a que distância se encontra um posto de abastecimento de combustível só tem de perguntar.
Com uma pitada mais de esforço imaginativo, poderemos vir a formular pedidos do género: "Lê-me aí as manchetes de hoje das edições electrónicas do Diário de Notícias, Público e Jornal de Notícias. Depois vê-me qual é a cotação da libra e encomenda-me o livro "Release 2.0" na Internet Bookshop."
A IBM garante que carros equipados com computadores bem apetrechados no tocante ao reconhecimento de voz não são utopias para brilharem apenas em séries de ficção na TV. Dentro de ano e meio, a nova tecnologia poderá já equipar os actuais carros, conhecidos pelo seu elevado grau de autismo. São mudos e pouco dialogantes. A indústria automóvel terá de acordar de vez para a era digital. Para já, são os fabricantes de computadores e de programas a levarem a dianteira, quanto mais não seja por razões puramente comerciais.
A apresentação deste carrinho-maravilha tem o seu quê de curioso, excêntrico e até divertido. Mas é também mais um sintoma da acelerada entrada das sociedades mais desenvolvidas na era digital, onde a linguagem dos computadores e os paradigmas das redes globais por eles constituídas falam mais alto e impõem-se gradual e transversalmente.
A domótica vai tratar de tornar as nossas casas mais inteligentes, concentrando num computador central desde a regulação da intensidade da luz ao controlo das contas bancárias de toda a família. A teleconferência dará origem ao crescimento do número de teletrabalhadores e de estudantes à distância. A televisão digital interactiva permitirá fazer todas as compras de Natal sem se sair de casa. O computador portátil transformará o panorama das salas de aula e a maneira como os repórteres trabalham no terreno.
Há cada vez menos espaço para dúvidas quanto ao grau de abrangência social das tecnologias ligadas ao mundo dos computadores. Apesar do elevado ritmo evolutivo nesta área, muita gente não se está a dar conta da revolução em curso. "Nunca vi as pessoas ignorarem a escala do que se está a passar como agora", desabafava, na terça-feira passada, em Bruxelas, um dos principais gurus da era digital, Nicholas Negroponte.
O autor do livro "Ser Digital", que falava numa conferência sobre tecnologia e informação, defendia a tese de que o potencial da Internet tem sido bastante subestimado. Tem-se pensado pouco, por exemplo, o impacto da rede planetária de computadores, que não conhece fronteiras físicas, na atenuação de nacionalismos e de desentendimentos entre nações.
O preço a pagar pelo alheamento das sociedades em relação aos fenómenos da era digital emergente pode vir a ser elevado. Não existindo uma educação atempada para o consumo das novas tecnologias, é provável virmos a assistir, em relação aos carros ligados à Internet e outros deslumbramentos do género, às mesmas anomalias que observamos hoje na utilização dos simples telemóveis. Tornou-se barato? Compra-se. É chique? Fala-se. Dá estatuto? Abusa-se. A conta do fim do mês é demolidora? Paga-se para a próxima.