Artes como o cinema e o teatro são excelentes intérpretes das transformações nas sociedades. Acompanham, retratando e interpretando, novos sinais e tendências, incluindo as que emanam das novas tecnologias da comunicação.
Uma produtora norte-americana de cinema está a preparar um filme erótico baseado numa moda que pegou na Internet: espreitar para dentro dos quartos das casas das pessoas através de câmaras de vídeo, chamadas "webcams", ligadas permanentemente. Na rede, há quem não se importe de mostrar a quem quiser ver as facetas mais íntimas da sua vida. E há mesmo quem faça do voyeurismo no ciberespaço um cómodo, lucrativo negócio. Quer ver uma Jenny qualquer despir-se, lavar os dentes ou, com um bocado de sorte, dar cambalhotas na cama com o namorado? Pague com cartão de crédito.
Se o realizador de "Turn me on" tiver unhas para agarrar o tema e os produtores o deixarem fazer algo mais imaginativo do que o típico enlatado de Hollywood, teremos filme.
Em Londres, Patrick Marber, autor britânico ligado ao teatro, aproveitou outra tendência consagrada pela comunicação mediada por computador, os grupos de conversação em tempo real ("chat groups"), para construir e levar à cena "Closer". A peça aborda as relações de intimidade entre personagens cujo ponto de encontro é a Internet, meio onde a identidade de cada um pode ser dissimulada, forjada, reinventada. Onde o ecrã do computador acaba por servir de escudo simultaneamente protector e libertador de emoções.
Os jogos de dissimulação e decepção proporcionados pelos contactos entre pessoas através do computador são, de facto, terreno fértil para o romance. E também para o estudo. Ao facto de hoje existirem milhões de viciados patológicos dos "chat groups" não será estranha a total liberdade de expressão aqui encontrada pelo povo do ciberespaço.
A relação entre a arte e o mundo dos computadores nas novas redes de comunicação dá pano para mangas. Esta relação trará certamente múltiplas inovações nos próximos anos e merece ser seguida com particular atenção. Contributo útil para a compreensão desta simbiose é o livro "Ars Telemática", lançado há pouco tempo no mercado nacional. Para que se compreenda de uma vez por todas que o que está em causa não são apenas computadores e máquinas afins. É a criatividade dos humanos.