Ele não estava a exagerar. Neste momento, alguns jornais do seu país estão já a utilizar software que escreve automaticamente peças jornalísticas a partir de dados, provenientes de diversas fontes, que chegam ao jornal via computador.
Não há nestes casos necessidade de intervenção humana ou de qualquer tipo de filtragem jornalística. O repórter é pura e simplesmente substituído pelo computador.
Para já, este software está a ser aplicado apenas no noticiário desportivo e apresenta ainda algumas limitações, nomeadamente quanto ao estilo de escrita. Mas é um bom exemplo de como as empresas estão atentas a tudo o que lhes permita reduzir gastos com funcionários. Este pacote de software, que se chama "SportsWriter", custa cerca de 15 contos. Um jornalista norte-americano faz sensivelmente o mesmo trabalho por mais de 200 contos por mês.
Um número crescente de empresas jornalísticas já utiliza este programa para a escrita de noticiário. Mais: alguns jornais já despediram profissionais da imprensa tornados obsoletos por tecnologias deste tipo.
Este é apenas uma pequena antevisão daquilo que poderá ser o jornalismo do futuro. Alguns investigadores, como John Pavlík, director da Escola de Comunicação da Universidade de San Diego, vão ainda mais longe. Na opinião de Pavlík, o jornalista é uma espécie ameaçada e, no futuro, poderá nem sequer haver necessidade de existirem empresas jornalísticas, pelo menos tal como as conhecemos hoje.
O acesso directo dos cidadãos aos media, nomeadamente através da Internet, e o aperfeiçoamento de software de escrita poderão tornar obsoleta a existência de jornais. Na Internet e noutras redes de computadores toda a gente pode ser fornecedor e consumidor de notícias ao mesmo tempo.
É perfeitamente possível, diz Pavlík, que seja uma fonte de notícias a fornecer directamente o conteúdo ao consumidor. Nesta perspectiva, seria posto de lado o eventual trabalho de selecção, enquadramento e contextualização por parte do jornalista.
Aplicações inteligentes que automatizam certas tarefas jornalísticas e começam a ligar as fontes das notícias directamente aos consumidores das mesmas pode, pois, representar o declínio do papel do jornalismo como filtro, ou "gatekeeper", na interpretação dos acontecimentos.
Há que reconhecer, no entanto, que estas opiniões são, de certa forma, minoritárias, se não radicais, no contexto do estudo dos novos media.
A corrente mais consensual aponta para a coexistência, a longo prazo, entre novas tecnologias e o bom velho jornalismo. No entanto, uma coisa é certa: o mundo das novas tecnologias, particularmente o mundo das redes de computadores, está a evoluir a uma velocidade extremamente difícil de acompanhar, também por parte dos jornalistas.
Para além do software e do hardware, cujas novidades se apresentam diariamente, para não dizer horariamente, o jornalista, bem como profissionais de outros ramos de actividade, enfrenta toda uma nova cultura, a cultura do ciberespaço ou, se quisermos, a cibercultura. O ciberespaço, cuja representação mais aproximada que temos é a Internet, tem os seus habitantes próprios. As suas regras e etiquetas próprias. O seus perfis sociais, profissionais e culturais próprios.
O jornalista que caia no ciberespaço como um estranho no paraíso pode sujeitar-se a experiências muito desagradáveis. Uma das mais comuns é levar com mensagens insultuosas, chamadas "flames", através de correio electrónico. Além disso, é conhecida a alergia dos cibernautas a tudo o que cheire a filtragem.