A aldeia da roupa suja

Hélder Bastos, JN, 24 de Outubro, 1998

Um simples repórter anda a pôr os cabelos em pé aos patrões de várias empresas de comunicação social norte-americanas. Maurice Tamman lembrou-se de, há dois anos, abrir uma página na Internet para desabafos jornalísticos. Mas o «site» acabou por servir para lavar roupa suja em quantidades industriais. Com todos os vizinhos da «Aldeia Global» a poderem espreitar.

Basta teclar o endereço www.newsmait.com para se ter acesso ao que de melhor, no pior sentido, se faz em centenas de redacções espalhadas pelos «States». Os desabafos dos jornalistas em relação, quer a colegas de trabalho, quer às suas próprias empresas, são quase todos anónimos, o que permite um grau de liberdade de linguagem e de expressão sem precedentes. O resultado não é nada bonito de se ver.

Um jornalista queixa-se de, em dois jornais da Califórnia, imperar «o medo, a força, a dominação e a tirania». Um chefe de outra publicação é acusado de ser «um pequeno Hitler» que passa a vida a perseguir jovens jornalistas do sexo oposto. É possível ler descrições de sérios abusos sexuais, de gritante incompetência profissional e de responsáveis que se divertem a infligir «dor emocional» aos subordinados, como refere Randy Dotinga no artigo que escreveu, sobre este assunto, para a revista «Editor & Publisher».

Na página de Tamman, onde cerca de setenta por cento das mensagens colocadas são negativas, «managers» dos media são ainda apontados por sexismo, racismo e preconceitos contra a homossexualidade. Sobre as suas próprias redacções, alguns profissionais avisam: «Afastem-se! Não venham para aqui! Fiquem longe deste sítio a todo o custo!».

Dotinga questiona: «O que quer isto dizer? Pode a vida nos jornais dos Estados Unidos ser tão horrível? Ou isto é apenas um fórum que promove, deslealmente, as opiniões de uns poucos insatisfeitos?» E responde: «Depende a quem se pergunta».

As críticas têm, ao longo do tempo, vindo a subir de tom. Ao ponto de o próprio dono do «site», que contém outras rubricas além das queixas anónimas ressabiadas, já ter avisado os seus colegas jornalistas que, a continuarem as demolições verbais, algumas serão censuradas. Provavelmente, Tammen já vai tarde. Ele abriu a Caixa de Pandora do jornalismo do seu país.

Que ninguém se lembre de fazer algo de semelhante por cá...

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