Para começar, deveria ter havido, por parte de quem mandou os polícias bater à porta dos estúdios da rádio, um pouco mais de preocupação com a imagem. Uma entrada à bruta deste género nas instalações de um órgão de comunicação social levanta sempre grande estardalhaço nos jornais, nas rádios e televisões. O juiz ou foi ingénuo ou quis deliberadamente saltar para o meio da fogueira. Recomenda-se a contratação, com carácter de urgência e à semelhança do que fazem os políticos, de um assessor de imagem. Um senão: cobram caro.
Segundo o relato dos jornais, a jornalista Madalena Ferreira estaria a violar o segredo de justiça, depreende-se, no momento da locução aos microfones. Por isso, foi "apanhada" em "flagrante delito", o que justificaria a sua detenção e julgamento em processo sumário. Evocar flagrante delito nesta situação demonstra, no mínimo, falta de chá e cortesia em relação à jovem, por muitos bons argumentos teórico-jurídicos que possam ser evocados para dar luta ao bom senso.
Se Madalena fosse "apanhada" na altura a meter um microfone Sennheiser ao bolso ou a enfiar um belo par de auscultadores AKG na sua mala, isso sim. Era flagrantíssimo. Trata-se de material bom e caro. Agora,"apanhá-la" a ler um texto que, como qualquer radialista sabe, poderia ter sido escrito por outro jornalista, isso revela escassez de massa cinzenta.
Levando ao extremo esta definição de flagrante delito poderíamos vir a ter relatos do género: "Repórter do Correio da Manhã apanhado pela polícia imediatamente antes de entregar texto polémico ao seu chefe de redacção"; Juiz manda cortar a luz à SIC por causa de notícia alegadamente difamatória lida por José Alberto Carvalho"; "Correspondente do El País em Lisboa expulso do país por ter revelado contas ultra-secretas da Expo/98".
Outro pormenor delicioso desta salgalhada legal foi os polícias terem apreendido todos os papeis que Madalena Ferreira utilizara para a leitura do noticiário. Com um pouco mais de diligência, e para que o trabalho fosse requintado até ao fim, poder-se-ia ter complementado a apreensão com uma busca à casa da jornalista, do género das que vemos na "Balada de Hill Street". Não seria ouro sobre azul, por exemplo, aceder à agenda de contactos da jornalista para, com um pouco de sorte, conseguir identificar as "gargantas fundas" do caso?
No espectro semântico deste episódio aparece, por outro lado, uma expressão com ressonâncias algo sinistras, consubstanciada na simples conjugação de duas palavrinhas, "processo sumário". É linguagem comum na gíria dos tribunais, é certo, mas não deixa de trazer à memória coisas profundamente desagradáveis. Uma delas, prepotência. Outra, prepotência. Pelo meio, alguma mente mais iluminada lá da Guarda tratou de transformar o processo sumário em comum, pois os apoios à jornalista começaram a chover de todo o lado.
A justiça portuguesa, como bem assinalou recentemente o presidente Jorge Sampaio, não anda nada bem de saúde. É lenta e anacrónica, um pouco como acontece com a Igreja. Se uma virtude o episódio da Guarda teve foi o de vir reforçar o pelotão daqueles que têm uma péssima ideia dos tribunais.
Além disso, veio acirrar ódios de estimação entre jornalistas e agentes da justiça. De facto, sai daqui mais vincada a "guerra de mundos" que marca, e continuará a marcar, a relação entre a justiça e o jornalismo. São campos profissionais com regras, tempos e princípios diferentes, tanto ao nível da prática como da teoria. As turras vão certamente continuar. O mais curioso é que, no meio de tudo isto, o tribunal da Guarda fez aquilo que normalmente é feito pela comunicação social. Criou uma estrela da rádio.