Nicholas Negroponte, director do Media Lab, uma espécie de meca das novas tecnologias situada em Boston, garante isto mesmo no seu livro «Ser Digital», agora com edição portuguesa (1). A obra tem-se revelado um verdadeiro sucesso de vendas em vários pontos do globo e tornou-se já ponto de referência em empresas, universidades e mesmo governos.
Ao longo de pouco mais de 260 páginas, o guru faz previsões susceptíveis de arrepiarem os cabelos aos mais tecno-cépticos. Uma das mais citadas tem precisamente a ver com o crescimento da maior rede de redes de computadores do mundo. Em finais de 1994, a Internet já era formada por mais de 45 mil redes e contava com 30 milhões de utilizadores.
Segundo as contas de Negroponte, por volta do ano 2000 teremos mil milhões de pessoas ligadas umas às outras por computador através da Net. Para fazer estes cálculos, ele baseia-se na taxa de crescimento da rede, nomeadamente em países como o Irão, a Argentina, o Peru, as Filipinas e mesmo a Indonésia, onde o poder de compra da maior parte da população é muito baixo.
Todos estes países apresentaram uma taxa de crescimento de 100 por cento no terceiro trimestre de 1994. É no «resto do mundo», leia-se fora dos Estados Unidos, que a Net está a crescer muito depressa.
A Internet, assegura Negroponte, servirá uma faixa mais larga de entretenimento e a comunidade de utilizadores estará «no centro da vida quotidiana. A sua demografia parecer-se-á cada vez mais com a demografia do próprio mundo.»
Na abordagem feita a este fenómeno, o autor de «Ser Digital» não se limita a falar das surpreendentes taxas de crescimento da rede e a prever um futuro menos risonho para as cadeias de televisão. Ele põe em confronto os dois modelos.
Argumenta que as redes de TV e as redes de computadores são quase o oposto umas das outras.
Em resumo, as redes de TV assentam numa hierarquia de distribuição. Uma fonte distribui o sinal para as televisões das nossas casas.
Nas redes de computadores não é nada disso que se passa porque estas constituem uma trama de processadores que tanto podem funcionar como fontes ou como destinos.
Escusado será dizer que Negroponte prefere as redes de computadores pela sua arquitectura aberta, adaptabilidade e interoperabilidade, ou seja, tudo aquilo que falta às de televisão. «A doutrina da difusão de televisão tem todos os dogmas do mundo analógico e carece quase totalmente de princípios digitais.» No entanto, acredita que a situação vai mudar. O agente da mudança, diz, será a Internet.
«A Internet é interessante não só como uma rede global enorme e ubíqua mas também como um exemplo de qualquer coisa que tem evoluído sem que, aparentemente, nenhum projectista se tenha encarregado disso e que mantém a sua forma de modo muito parecido com o da formação de um bando de patos. Ninguém é o patrão, mas todas as peças vão encaixando, até hoje de uma forma admirável.»
Apesar disso, e como alguns governos têm demonstrado, não faltam sequiosos candidatos a patrõezecos do ciberespaço.
Apesar de neste Comunicarte serem focados apenas algumas ideias de Negroponte sobre redes, e em particular a Internet, «Ser Digital» está muito longe de se ficar por aqui. O director de Media Lab vai desde a explicação do que é um bit até às mais arrojadas previsões àcerca da forma como o homem se vai relacionar com o computador daqui a alguns anos.
Os mais resistentes às novas tecnologias têm nesta obra uma excelente oportunidade para quebrarem algum gelo. Negroponte escreve bem, apesar de ser disléxico. E sentido de humor também não lhe falta.
Apenas um pequeno aviso. Não se assuste com a dedicatória do livro: «Para Elaine que apoia o meu ser digital há exactamente 11111 anos».
(1) «Ser Digital», Nicholas Negroponte, Editorial Caminho, Lisboa, 1996