Ideias como esta foram lançadas no seminário NetMedia 96. Organizado por jornalistas para jornalistas, o encontro teve lugar no mês passado, em Londres, e serviu para abanar as cabecinhas de muita gente ligada a empresas jornalísticas com apetites repentinos pela Internet.
Gente de peso no meio da edição electrónica tentou, por um lado, fazer o ponto da situação dos jornais publicados na Internet e, por outro, espicaçar as almas mais adormecidas.
Um dos desafios interessantes partiu de um senhor chamado Brock Meeks. Ele é correspondente em Washington da revista de referência dos cibernautas de todo o Mundo, a Wired, e também produz a Cyberwire Dispatch. Meeks estava, portanto, bem posicionado para dizer aos participantes do seminário que no ciberespaço é mesmo preciso um novo jornalismo, a anos luz do proposto, há muitos anos, por Tom Wolfe e companhia.
Meeks tocou num ponto crucial. Ele sabe que a maioria dos jornais disponíveis na maior rede de redes de computadores do Mundo, a Internet, estão ainda na fase do «deixa lá ver o que isto dá...»
Daqui resultam vários equívocos. O mais desconcertante: a transposição a frio dos modelos jornalísticos tradicionais para um meio radicalmente diferente. As empresas jornalísticas de dezenas e dezenas de países entram no ciberespaço como um elefante numa loja de bonecas de porcelana.
O que Meeks no fundo quis dizer foi: no ciberespaço a cantiga é outra, meus caros. Não vale a pena pegar numa corneta e ir tocá-la para a Internet. Porque lá estão a berrar, ao mesmo tempo, milhões de fagotes, gaitas de foles, acordeões, trombones, baterias e uma quantidade inimaginável de coros como o de Santo Amaro.
Outro aspecto interessante posto em relevo no seminário prende-se com a expansão exponencial dos jornais electrónicos fora dos Estados Unidos, os primeiros a apostarem em força nestes produtos.
A Europa conta já com 170 jornais, a Àsia com 54, a América do Sul com 25 e África com seis. Tal como comentou um dos oradores, por sinal norte-americano, com estes números é difícil encarar a edição electrónica na rede como um fenómeno puramente americano.
A velocidade de crescimento na Europa tem sido estonteante, talvez pelo facto de o Velho Continente ter descoberto que os americanos vão pelo menos um ano à frente. A aposta dos jornais na Internet passou rapidamente de fantasia futurística, alimentada por glutões fanáticos dos «bits», a negócio sério.
Os conferencistas, no entanto, não tocaram com paninhos quentes no reverso da medalha. Focaram também sinais algo inquietantes.
«Porque todos os outros o estão a fazer...» A maior parte das empresas jornalísticas justifica assim as suas páginas na Internet. Sem estratégia nem domínio do meio, improvisam. Quase sempre mal. Resultado: ficam todos chateados porque afinal o lucro não chega.
Daí seja entendível o desdém de alguns especialistas pelas actuais publicações na World Wide Web (WWW), a parte mais apetecida (tem textos, sons e imagens) da rede.
É o caso de Richard Whitey, director de novos «media» da News International. Na sua intervenção
durante o NetMedia 96 virou-se para o auditório e disse: «Estejam descansados porque eu não vos
vou mostrar nenhumas páginas ou sites da Web. Elas não ilustram mais que a habilidade de
empresas poupadas para queimarem dinheiro.»