Jornais e hiperjornais

Hélder Bastos, JN, 7 de Setembro, 1996
Uma das principais diferenças entre os jornais tradicionais e os electrónicos reside no chamado hipertexto. No diário comprado no quiosque do costume, o leitor adquire textos. O mesmo produto lido num computador oferece textos ligados a outros textos. Ou seja, hipertextos.

No jornal de papel, a leitura é feita de modo sequencial. O texto é, em princípio, lido do início ao fim, de cima para baixo. Trata-se, aliás, de um conceito bastante arreigado na cultura ocidental desde há vários séculos: o da sequencialidade.

Nos jornais electrónicos, o facto de certas palavras ou frases, uma vez carregadas com o rato do computador, darem acesso imediato a outras prosas vem baralhar a sequencialidade da leitura.

O hipertexto está, por isso, mais próximo da forma como o pensamento humano funciona, pois assenta na associação de ideias. Quando falamos uns com os outros não o fazemos como se estivessemos a ler um acórdão do tribunal.

Se assim fosse, as conversas entre amigos tornar-se-iam uma tremenda seca. Saltitamos de ideia para ideia, com muitos «e por falar nisso...» ou «lembrei-me, a propósito...». O modo como os pensamentos se encadeiam não é sempre o mesmo. Cada pessoa traça o seu caminho conforme os seus gostos, sensibilidade e forma de raciocinar.

Algo de semelhante se passa na leitura de um jornal electrónico, bem como na maioria das páginas disponíveis na Web.

Um exemplo: o leitor electrónico chama um texto sobre o mais recente ataque dos americanos contra Saddam Hussein. No ecrã surge um típico texto jornalístico, de natureza sequencial. Mas com a tal diferença de aparecer com certas palavras de cor diferente, que permitem ao leitor escolher o seu percurso de leitura.

Infelizmente, nem todos os produtos jornalísticos disponíveis na Net, que são mais de mil neste momento, estão a tirar o devido partido das potencialidades do hipertexto. Em nada ajudam ou estimulam o leitor ao limitarem-se a despejar, sem mais tratamento, os textos publicados nas edições de papel.

As origens do hipertexto, por incrível que pareça, remontam ao ano do fim da Segunda Guerra Mundial. Em 1945, um dos conselheiros do presidente Roosevelt, Vannover Bush, começou a fartar-se de ter de lidar com um esmagador caudal diário de informação.

Bush percebeu que os sistemas de recuperação não tinham sido pensados para fazer face a tal torrente de dados. Vai daí, idealizou o sistema memex, que outras cabeças vieram a aperfeiçoar até chegarem ao hipertexto.

No ano em que por cá tivemos a Revolução dos Cravos, do outro lado do Atlântico um senhor chamado Theodor Nelson baptizava a palavra hipertexto definido-o, precisamente, como uma «escrita não sequencial».

Hoje, parece consensual a ideia segundo a qual um sistema de hipertexto é a melhor solução para um jornal electrónico. Porque permite ao utilizador uma leitura multidimensional e dinâmica, mais de acordo com os interesses do próprio leitor e menos determinada pelo emissor, como acontece com os jornais tradicionais.

Aliás, tudo indica estarmos a caminhar, a passos largos, para o que alguns autores chamam o «daily me», isto é, o jornal feito estritamente à medida dos gostos e necessidades do leitor. Os hiperjornais estão aí a bater à porta.

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