Cinéfilos, melómanos e surfistas

Hélder Bastos, JN, 8 de Fevereiro, 1997
O realizador Lars Von Trier desfazia-se em lágrimas enquanto filmava «Ondas de Paixão». Gavin Bryars deixou a filosofia para trás e dedicou-se à música contemporânea. Na Internet, com paciência na pesquisa, há de tudo para cinéfilos e melómanos.

É uma experiência que qualquer utilizador da maior teia de computadores do mundo pode fazer. Ir à procura de dados sobre filmes ou discos sobre os quais a informação disponível em Portugal é, por vezes, escassa, pobre, chata e de difícil acesso.

Um cinéfilo ferrenho deixou escapar, por qualquer razão, as crónicas ou críticas dos jornais portugueses. Está com ideias de ir ver «Ondas de Paixão», recentemente estreado por cá, mas gostaria antes de ler algo sobre esta obra. Solução rápida é espreitar páginas da World Wide Web (WWW) na Internet.

Se optar pelo motor de pesquisa AltaVista e colocar lá as palavras-chave «Breaking the Waves», o título original do filme, obtém 200 páginas, a primeira das quais a do Festival de Cannes do ano passado. Aparecem-nos textos em francês com dados sobre os actores, a ficha técnica, uma sinópse do filme e a biografia de Lars Von Trier. Nascido em 1956, em Copenhaga, Trier diplomou-se na Escola Dinamarquesa de Cinema. Em 1991 realizou a curiosa película «Europa», obra que lhe deu larga projecção internacional. Se não tivermos muita pressa podemos ler ainda uma declaração de intenções de Trier a propósito da sua mais recente obra.

Páginas em alemão, italiano e holandês aparecem-nos pelo caminho da pesquisa. Na revista «Movie Reviews UK», o crítico de cinema Damian Cannon diz, em inglês corrente, que «Ondas de Paixão» «é um filme verdadeiramente impressionante».

Mais à frente podem ser lidos artigos escritos no diário francês «Le Monde» sobre o filme. Título de um deles, com data de Maio de 1996: «Lars Von Trier, ou a magia reencontrada do cinema». A crítica elaborada por Pascla Mérigeau encaixa no tom geral de elogio presente nas outras páginas visitadas. Nas holandesas apenas dá para perceber que são dadas quatro estrelas ao filme...

Filme do ano, «emocionante e transcendente exploração da demência e triunfo do amor supremo» é como o crítico da «Movie Reviews» se refere a «Breaking the Waves». Nesta revista electrónica podemos também ler uma entrevista com a actriz britânica Emily Watson, que interpreta magistralmente o papel principal.

A esta altura do campeonato, o utilizador da Internet já não deverá ter dúvidas sobre a qualidade deste melodrama, tipo de filme que sempre atraiu Von Trier. «Sempre quis fazer um melodrama. É fantástico fazê-lo, mas é também emocionalmente muito duro. (...) Sentava-me aqui e desfazia-me em lágrimas durante as filmagens. Juro! Perguntem por aí! Até as mulheres gozavam comigo». Este desabafo do realizador está disponível noutra página de «Cannes 96», festival que estreou e premiou «Breaking the Waves».

Passemos para outras ondas. Imagine que, um dia destes, dava um salto a uma loja de discos e deparava com um CD de capa atraente, colocado ao lado de nomes como Michael Nyman, Wim Mertens e John Cage, mas com um autor completamente desconhecido para si. Depois de espreitar a lista de músicos e respectivos instrumentos, resolvia ouvir. Gostou? Comprou. Por exemplo, «Farewell to Philosophy», de Gavin Bryars. Como saber, rapidamente, coisas sobre este senhor?

Uma pesquisa na Net dá-nos 300 páginas. Diz-nos, por exemplo, que Bryars é um compositor britânico nascido em 1943, na cidade de Yorkshire. Ganhou nome como baixista de jazz nos anos sessenta, improvisando com músicos como Derek Bailey e Tony Oyley. A sua primeira grande obra foi «The Sinking of the Titanic», com data de 1969. Hoje dá aulas de música no Leicester Polytechnic. Estes dados estão na página oficial de Gavin Bryars, sítio onde podemos consultar toda a discografia do compositor, endereços úteis para eventuais fãs e ligações a outras páginas, como as da fabulosa editora ECM.

Só à custa de «Ondas de Paixão» e de Gavin Bryars podemos passar uma tarde inteira a «surfar» na Internet. Agora imagine se a pesquisa fosse sobre Mozart ou Sharon Stone. 1

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