Ponto de encontro

Hélder Bastos, JN, 25 de Janeiro, 1997
Costuma dizer-se que a rádio apresenta, a televisão mostra e a imprensa explica. Agora, os jornais electrónicos da Internet podem fazer tudo isto ao mesmo tempo.

Os órgãos de comunicação social utilizam meios diferentes para chegarem ao público. O leitor pega no jornal de papel para ler o seu colunista preferido. O ouvinte sintoniza a estação do seu agrado. O telespectador liga o televisor para poder saltar de «Ai os Homens» para um documentário tranquilo sobre Umberto Eco. Mas, agora, todos partilham um espaço comum para chegarem a todo o lado: o ciberespaço.

Qualquer cidadão português utilizador da rede Internet tem hoje acesso às páginas dos «media» tradicionais do seu país. Pode ler e ouvir o noticiário da Rádio Comercial ou da TSF. Pode consultar as versões electrónicas do Jornal de Notícias ou do Público. Pode ainda espreitar os conteúdos oferecidos pela TVI. E, acima de tudo, pode comparar toda a oferta.

A Internet tem atraído principalmente empresas que se dedicam à venda de jornais em papel. Mas estações de rádio e de TV, bem como agências noticiosas, não ficaram a ver navios. Lançaram mãos à obra na construção dos seus próprios produtos electrónicos. Resultado: passaram a competir entre si no mesmo «quiosque», utilizado por cerca de 50 milhões de pessoas em quase todo o planeta.

A competição acabou por revelar aspectos interessantes. Por exemplo, que as estações de TV estão, à partida, em vantagem, pois manipulam texto, som e imagem. Estes componentes são por vezes aproveitados para os seus jornais electrónicos da Web. É o caso da TVI, que oferece texto, fotografia e som em directo, ou da CNN Interactive, que permite ver também excertos de vídeo.

Apesar de o fenómeno da edição jornalística na Internet ser muito recente, pois começou apenas em 1993, hoje aponta-se com frequência para a ideia de que os produtos devem ser interactivos e multimedia. Interactivos no sentido de darem mais relevo ao papel do utilizador; multimedia para que seja oferecida uma combinação de texto, som e imagem (fotografia ou vídeo), tal como acontece numa enciclopédia em CD-ROM. No entanto, actualmente, contam-se pelos dedos os verdadeiros casos de sucesso.

Por outro lado, algumas experiências no ciberespaço estão a tornar evidente o que Hoag Levins, da revista «Editor & Publisher», classifica como «um dos efeitos mais espantosos da Internet - a corrosão da linha que tradicionalmente separava as categorias dos «media» e as audiências».

Por exemplo, certas estações de rádio estão a utilizar as suas páginas na Web para competirem directamente com os jornais, tentando disputar precisamente os mesmos leitores e anunciantes. E estão a fazê-lo movendo-se em direcção a uma maior profundidade informativa, terreno onde, até aqui, a chamada imprensa escrita era rainha.

Já se vêem casos de rádios que, na Internet, oferecem ao utilizador longas peças de contextualização dos assuntos da actualidade. Ou seja, apresentam, mostram e explicam ao mesmo tempo. Note-se que na rede as notícias podem ser actualizadas a qualquer hora.

Os cibernautas, por seu lado, não parecem fazer grandes distinções. Para eles, é indiferente que seja um jornal ou uma TV a estar por detrás das notícias. O que conta é saber se estes meios fornecem notícias e reportagens que valham a pena ler no computador.

P.S. O Diário de Notícias vai ter um provedor dos leitores. É uma excelente iniciativa. Já por várias vezes foi defendida nesta coluna a implementação desta figura nos jornais portugueses, à semelhança do que acontece em Espanha, por exemplo, com o diário de maior tiragem, «El País». A imprensa portuguesa tem feito muito pouco pela sua própria credibilização. O provedor é claramente um passo em frente.

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