Durante 1996 foram muitos os media que, primeiro, estranharam o fenómeno Internet e, depois, nele se entranharam apressadamente. Neste aspecto, acompanharam o ritmo de crescimento acelerado de domínios lusófonos na maior rede de redes de computadores. Bancos, lojas de discos, livrarias, stands de automóveis, ministérios, institutos, tomaram de assalto a parte mais atraente da Net, a World Wide Web. Acompanhar a moda e rezar por lucros foram duas boas razões adiantadas para explicar a aposta.
A Web é atraente porque permite ao utilizador da Internet visualizar páginas com grafismo colorido e arrojado, saltar de texto em texto, de local em local, ouvir sons e mesmo ver excertos de vídeo. Ora, algumas empresas que deram o mergulho na rede parecem não ter percebido isto.
Entre essas empresas estão as jornalísticas. Contam-se pelos dedos as que captaram inteligentemente as potencialidades oferecidas por este novo meio de comunicação planetário e sem fronteiras. Dado o facto de a Internet permitir aos seus quase 50 milhões de utilizadores terem uma noção apurada daquilo que é produzido fora dos seus países, as comparações tornam-se impiedosas.
Veja-se o caso concreto dos jornais electrónicos. Durante 1996, os norte-americanos continuaram a dar baile aos europeus, que já haviam partido para esta indústria com grande atraso. Apesar disso, o Velho Continente acordou e lá começou a recuperar da paralisia inicial. O número de diários escritos em línguas que não o inglês disparou, felizmente. Mas os melhores produtos, sob o ponto de vista de conteúdos, interactividade e recursos humanos, como é o caso do site da cadeia de televisão CNN, continuam nas mãos do Tio Sam.
Lá como cá, no entanto, as queixas dos cibernautas em relação à maioria dos jornais digitais são idênticas. A começar pelo grafismo. Em geral, é fracote e pouco cativante, em parte por ser uma cópia dos modelos das edições de papel. Boa parte dos diários electrónicos portugueses peca também neste capítulo.
Por outro lado, pouco ou nada se alterou em relação ao que continua a ser o maior erro dos jornais na Net: serem um despejo dos de papel. Não foram dados passos significativos de forma a potenciar os recursos da edição jornalística electrónica.
Avançar qualitativamente implicaria empenhar nos projectos, entre outros elementos, jornalistas a tempo inteiro, à semelhança do que se vai fazendo noutros países europeus, como é o caso da vizinha Espanha. No caso dos diários nacionais, tirando o caso do JN electrónico, o recrutamento e formação de jornalistas digitais é praticamente nulo.
A Internet é um meio exigente com características muito próprias. Para se tirar partido dela é preciso conhecê-la o que, por sua vez, implica especialização e dispêndio de tempo. Sem isto não se passará do amadorismo. E o amadorismo não costuma dar lucro. Nem cá nem em lado nenhum.
No meio da pobreza do jornalismo electrónico interactivo multimedia lusitano salvam-se (como bem foi assinalado no último suplemento «Media XXI», do Expresso) o JN, o «Público» e o DN, bem como o pioneiro das edições «on-line» em Portugal, o «Blitz».
Em paralelo, rádios, como a TSF e a Comercial, e televisões, como a TVI, têm feito experiências interessantes na Web. Mas ainda há muito caminho a percorrer para tornar aqueles produtos rentáveis, por um lado, e jornalisticamente interactivos e multimedia de facto, por outro.
Alguns produtos vão à frente a mostrar o caminho. Por isso são escolhidos por milhares de utilizadores. A revista «American Jornalism Review» publicou, há dias, o resultado de um inquérito, feito a mais de 30 mil cibernautas, sobre a qualidade dos «sites» jornalísticos escritos em inglês, a língua dominante na rede. CNN e «USA Today» aparecem à frente numa lista de meia centena de produtos. Ambos têm equipas exclusivas constituídas por dezenas de profissionais. Europeus aparecem, por exemplo, o «Electronic Telegraph» e o «Times», de Londres. A Península Ibérica não faz parte deste mapa.