Quem tem unhas conduz um Ferrari

Hélder Bastos, JN, 1996
Gazeta das Caldas, Jornal de Notícias, El País, Le Monde, Financial Times, New York Times e Washington Post partilham hoje um mesmo espaço. Parece mentira, mas a coisa mais fácil para um utilizador da Internet é saltar da página de desporto do Notícias para as últimas de economia do diário americano que correu com Nixon da Casa Branca.

A entrada de largas centenas de jornais na Internet, principalmente nos últimos dois anos, veio baralhar as noções de espaço e de tempo ligadas a estes produtos jornalísticos.

Dantes, se o leitor quisesse ter acesso, no conforto da sua casa, ao Washington Post sujeitava-se a pagar balúrdios pela assinatura e a ler notícias com pelo menos uma semana de atraso. Hoje, o ciberleitor tem acesso à excelente edição electrónica deste diário poucos segundos depois de ligar o seu computador pessoal conectado à rede mundial, onde estão disponíveis mais de mil jornais electrónicos de todo o Mundo.

Perguntará agora o leitor: e isso de consultar jornais estrangeiros via computador também não fica muito caro? A resposta é: não. Durante o tempo de consulta, paga apenas o custo correspondente a uma chamada telefónica local.

A maior parte dos jornais electrónicos ainda não cobra «portagem». Apenas alguns mais prestigiados, como o norte-americano New York Times e o britânico Financial Times, exigem ao ciberleitor o pagamento de uma quantia fixa.

Estes novos produtos podem ser divididos em dois grupos principais. Um, maioritário, joga à defesa. Outro, minoritário, ao ataque e em força.

Os que jogam à defesa fazem apostas tímidas na Internet. Acham que devem entrar neste meio apenas porque toda a gente o está a fazer. Evitam investimentos em meios técnicos e humanos, limitam-se a despejar para a rede as notícias que publicam nas versões de papel e ficam todos contentes com a proeza. Em suma, não sabem tirar partido das vantagens oferecidas pelo novo meio. É como se comprassem um Ferrari de doze cilindros e fossem com ele para a auto-estrada andar a 70 à hora.

Os atacantes arriscam a sério e com graça, um pouco como fazem os futebolistas brasileiros mais inspirados. Percebem que editar jornais na Internet é um empreendimento com características e exigências próprias. Por isso, investem em pessoal especializado, incluindo jornalistas, desenhadores, programadores, técnicos de informática, etc. E, acima de tudo, adaptam e diversificam o conteúdo jornalístico.

A nova versão do Washington Post é um dos mais recentes exemplos de um projecto feito com cabeça, tronco e membros nas páginas multimedia da Internet, a World Wide Web (WWW).

O Post electrónico é um dos poucos que tem uma equipa própria, constituída por quase meia centena de pessoas, a trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana. A informação é actualizada a uma média de 20 vezes por dia.

Aqui o leitor dispõe de muitas notícias produzidas apenas para esta versão, isto é, não são publicadas na versão de papel. Por exemplo, numa rubrica sobre interactividade, pode encontrar informações que o ajudam a navegar melhor na rede.

Além disso, mais de uma dúzia de repórteres da redacção «tradicional» do Post estão a moderar grupos de discussão no jornal electrónico.

Estas e muitas outras características aliciantes do Post ajudam a perceber a razão de o jornal ter um milhão de consultas por dia. Eles sabem ter um Ferrari nas mãos. 1

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