«É um emprego, mas é jornalismo?», questiona-se na última edição da revista de jornalismo da Universidade de Columbia, a propósito da emergência dos novos media. Baseados no computador, são olhados com alguma desconfiança pelos repórteres formados na tarimba da caneta e do bloco de apontamentos.
A vaga de novos empregos só foi possível porque as empresas jornalísticas despertaram muito rapidamente, emboram nem sempre da melhor forma, para as possibilidades oferecidas pela Internet. Hoje podemos consultar milhares de jornais e revistas de todo o mundo num computador. No entanto, as apostas no ciberespaço são feitas a velocidades diferentes. Enquanto há jornais digitais com equipas constituídas por setenta ou oitenta elementos, entre eles uma boa fatia de jornalistas, outros nem sequer de um dispõem.
Com estes empregos, em geral mais bem pagos que os seus congéneres de caneta e papel, os jornalistas viram-se de súbito baptizados com novos títulos, do género editor «on-line», produtor «on-line» e repórter «on-line». E já não serão tão poucos como isso. Uma recente sondagem da Coopers & Lybrand indica que a indústria dos novos media já emprega 71.500 pessoas, apenas na área de Nova Iorque. Até 1998, poderão vir a ser acrescentados entre 40 mil a 120 mil novos postos de trabalho. Estes incluem programadores, designers, administradores e, claro, ciberjornalistas.
Existem ainda muitas dúvidas e reticências quanto ao seu papel e às suas funções. Talvez isso explique o facto de uns estarem excitados e outros muito desiludidos, como nos é dado a ver no artigo da revista da Universidade de Columbia.
Alguns profissionais deram o salto de redacções tradicionais para as digitais. Em certos casos, deixaram pura e simplesmente de redigir notícias e passaram a lidar com uma nova liguagem, a do hipertexto. Nome técnico: HTML. Para já não falar de outras ferramentas, como o correio electrónico, transferência de ficheiros, grupos de discussão e instrumentos de pesquisa.
Os mais satisfeitos parecem ser aqueles que estão em jornais ou revistas onde boa parte do conteúdo é produzido por si, especificamente para as edições electrónicas. «As pessoas mais novas que parecem mais contentes nos novos media são aquelas cujos empregos incluem reportagem, redacção, edição, numa palavra, jornalismo, pelo menos semelhante ao que eles estariam a fazer se tivessem escolhido imprensa. Que espaço haverá para este jornalismo no mundo online do futuro é, no entanto, algo em aberto», diz Christina Ianzito.
A maioria dos descontentes, por seu lado, pode ser encontrada nas empresas que optam apenas por descarregar o conteúdo das publicações em papel para a Web sem grande tratamento.
Em Portugal, o mercado de trabalho na área dos novos media tem de ser procurado, pacientemente, com um microscópio. A maior parte dos diários nem sequer jornalistas a tempo inteiro tem nas suas edições electrónicas. Fica-se pelo despejo directo na Web, por vezes com páginas insuportavelmente pesadas, enfeitadas com penosos «frames». Era o caso do «Público On-Line», até à recente remodelação. No outro extremo estão jornais digitais como «A Bola» e «O Correio da Manhã»: meia dúzia de páginas para dizer que também estão na crista da onda.
Como é fácil de ver, projectos do género não deixam qualquer espaço para a descoberta e afirmação de jovens talentos. Também nesta área o país está a fazer os devidos esforços para chegar pontualmente atrasado ao futuro.