Escolas com pedalada

Hélder Bastos, 30 de Novembro, 1996
A chegada dos computadores multimedia às salas de aula é uma excelente notícia. Excepto para aqueles professores que puxam do revólver quando ouvem falar de novas tecnologias.

Por muito difícil que seja aceitar, boa parte dos alunos dos ensinos preparatório, secundário e mesmo universitário não se revê, nem nos métodos, nem nas ferramentas de ensino actuais. Começa a ser cada vez mais profundo o fosso entre a realidade social e a actualidade da sala de aula. Na era digital dos telemóveis, dos «pagers», da TV por cabo, das consolas de jogos para os miúdos, da Internet, dos CD-ROM educativos, o professor continua calmamente a socorrer-se do quadro preto e do giz branco. Não é de admirar os alunos «ligarem à terra» por acharem as aulas uma grande seca.

É claro, há excepções. E existem muitos outros problemas nos estabelecimentos de ensino que as paixões dos governos não conseguem resolver, como a falta dos equipamentos mais básicos. Convém não esquecer: estamos num país onde alguns alunos ainda se sujeitam a apanhar chuva e frio enquanto ouvem o professor debitar geometria descritiva. São factores a ter em conta, a par do esforço de muitos professores para conseguirem exercer a sua profissão com um mínimo de dignidade.

Neste quadro, tem sabor especial qualquer notícia virada para o ensino e as novas tecnologias.

Em meados deste mês, os jornais deram conta do projecto de ampliação de uma rede de computadores que actualmente liga apenas universitários e investigadores. A rede da Comunidade Científica Nacional passará a incluir as 1600 escolas do quinto ao décimo segundo ano, bem como bibliotecas e museus.

Por outro lado, o Governo já havia prometido instalar em cada uma daquelas escolas, até Maio do próximo ano, computadores multimedia com ligação à Internet.

Estas notícias podem ser boas, mas também más. Serão boas se, na prática, os alunos forem devidamente acompanhados na exploração dos novos territórios. Há um mundo inteiro à espera deles do outro lado do computador. Para isso, os professores terão de abandonar preconceitos e rotinas, disponibilizando-se também para reformularem os seus métodos. Novas tecnologias implicam novas pedagogias. As notícias serão más se o equipamento for instalado para ficar às moscas num qualquer canto poeirento da biblioteca lá da escola. Que não aconteça aos computadores multimedia o que neste país se verifica com as estações de tratamento das águas residuais: constroem-se, mas não se utilizam.

Enquanto isso, lá por fora vão-se fazendo experiências mais arrojadas neste campo. No início deste ano lectivo, uma universidade privada norte-americana entregou aos alunos 940 computadores portáteis.

Cada «ciberestudante» leva o respectivo terminal para as aulas. Aí tira os seus apontamento e faz exercícios, complementados, na hora, com imagens ou notas tiradas da Internet. Além disso, através do correio electrónico, comunica com os professores. Coloca perguntas, recebe recomendações, envia os seus trabalhos para serem corrigidos privadamente ou na aula. Enfim, um luxo ao alcance de poucos, pelo menos por enquanto.

O impacto das novas ferramentas, aliadas a diferentes procedimentos, tem sido assinalável, para o bem e para o mal. O ambiente está em mudança acelerada nas universidades, principalmente nas mais endinheiradas.

Professores e alunos trocam mensagens electrónicas como nunca. Mas vêem-se cada vez menos. Os alunos atiraram-se de cabeça para os computadores multimedia. E esquecem-se de ir dar dois dedos de conversa com os amigos no bar ou na biblioteca da escola. Por vezes, passam mais de cinco horas por dia agarrados ao ecrã. Há mesmo casos em que as maravilhas da comunicação «on-line» são aproveitadas para namorar com o par que está no quarto ao lado... 1

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