Jornalismo de alta velocidade

Hélder Bastos, JN, 27 de Janeiro, 1996
A rede Internet está definitivamente a popularizar-se em Portugal. Agora, todos os dias, uma telenovela brasileira encarrega-se de pôr toda a gente a perguntar como é aquilo de a cigana falar com o galã de Tóquio através do computador. «Aquilo» é uma pequeníssima amostra do que é possível fazer com as redes informáticas mundiais.

Na realidade, muitos jovens e menos jovens utilizam hoje ferramentas como o correio electrónico para namorar à distância. E já se fizeram mesmo casamentos via Internet.

À parte do novo e estranho romantismo virtual, a Internet, bem como outras redes comerciais em funcionamento, está a ter um impacto muito significativo em importantes áreas do conhecimento e da experiência profissional.

Veja-se o caso do jornalismo. Em certos países mais avançados, a «Net» tornou-se rapidamente num instrumento de trabalho indispensável para os profissionais dos «media» noticiosos, introduzindo mudanças nos hábitos e rotinas de trabalho.

Quando, no início do século, o telefone começou a ser utilizado massivamente pelos jornalistas, teve um profundo impacto no jornalismo porque veio permitir a recolha de uma maior quantidade de dados num espaço de tempo bastante menor.

O repórter no local podia enviar por telefone as suas reportagens reduzindo assim o tempo entre o acontecimento e a impressão do artigo.

A exploração das maravilhas deste pequeno aparelho não se ficou por aqui. Os profissionais passaram também a entrevistar as suas fontes sem saírem do local de trabalho.

Não é difícil adivinhar que a Internet poderá vir a ter um impacto semelhante no jornalismo dos próximos anos, embora, por enquanto, a sua utilização seja relativamente limitada, quer em termos de quantidade quer de qualidade.

O telefone levou um século a ser aperfeiçoado. É, pois, de esperar que a rede leve também algum tempo a ser afinada. E isso passará por três factores principais: aumento da velocidade de acesso; aumento da quantidade e variedade de dados consultáveis; melhoria dos métodos de identificação e acesso.

Na versão dos nossos dias, a Internet permite concretizar, de uma forma eficiente, tarefas tão importantes como a recolha de dados e a comunicação de informações.

O repórter, desafiado, em paralelo, a estar atento às diversas armadilhas do ciberespaço, tem acesso instantâneo a bancos de dados e a fontes situadas a milhares de quilómetros de distância.

Nalguns países, os governos têm colocado à disposição dos utilizadores uma boa parte dos documentos oficiais produzidos pelos seus departamentos. Autarquias, tribunais, agências públicas de todo o tipo seguem os mesmo passos. Ora, toda esta documentação constitui um excelente manancial para o trabalho jornalístico. O potencial desenvolvimento da rede levanta, no entanto, algumas questões para as quais os jornalistas devem estar particularmente atentos.

Uma delas tem a ver com o controlo do fluxo informativo. À medida que a tecnologia evolui, certos agentes, como empresas de «software» e companhias de telefones e de cabo, nomeadamente privadas, serão tentados a dominar o meio.

Ao mesmo tempo, alguns governos manifestaram já a sua intolerância em relação a um espaço onde a informação ultrapassa fronteiras sem censura prévia. Mesmo em países desenvolvidos, aparecem as primeiras tentativas de controlo legal sobre certos conteúdos.

Mais e melhor acesso à rede para um número cada vez maior de cidadãos de todo o Mundo poderá vir a significar vantagens acrescidas para o jornalista, mas também vai levá-lo a assistir a uma transformação da natureza do seu ofício.

Até que ponto é o que veremos nos próximos anos. 1

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