Que notícias quer ler?

Hélder Bastos, JN, 16 de Novembro, 1996

«Eu nunca penso no futuro:
chega demasiado depressa»

Albert Einstein

O patrão dos jornais do futuro será o leitor. Será ele a decidir o que quer ler, quem quer ler, como quer ler, quando quer ler. Em vez de produzirem para massas, os jornalistas poderão muito bem vir a trabalhar para egos.

Os anos recentes têm sido férteis no desenvolvimento de projectos ligados a novas formas e suportes de distribuição de produtos jornalísticos. O «Daily Me», de Nicholas Negroponte, e o «flat panel» ou painel plano, de Roger Fidler, protótipos já abordados nesta coluna, são dois exemplos. Mas poderiam ser citados outros. Entre eles o interessante projecto do diário catalão «Periódico de Catalunha».

Se estes estão a ser pensados para amanhã, os jornais digitais disponíveis hoje na Internet estão igualmente empenhados em passar a bola para o lado do leitor.

Diários como o Times, de Londres, o Wall Street Journal, ou o exclusivamente digital MSNBC, resultado da associação entre a gigante do software Microsoft, de Bill Gates, e a cadeia de televisão norte-americana NBC, permitem ao leitor electrónico personalizar a leitura. Preenchendo um formulário, ele indica, por exemplo, que apenas quer passar a receber notícias relativas a aquariofilia, corridas de tartarugas e ovnis.

A cadeia de televisão CNN, por seu lado, tem investido em força no ciberespaço. Na Internet chama-se CNN Interactive. Tem um volume de consultas diário muito elevado, recebe cerca de 500 mensagens electrónicas por dia e conta com uma equipa de mais de cem pessoas, a maioria das quais jornalistas.

O passo seguinte da CNN Interactive, considerado unanimemente um dos melhores espaços jornalísticos na Net, é a apresentação de notícias personalizadas com imagens em movimento. No entanto, segundo o director do projecto, isto só será possível dentro de cinco anos.

Nessa altura, os utilizadores poderão, entre outras coisas, optar por ver no computador uma conferência de imprensa do presidente dos Estados Unidos. Será um jornal electrónico pessoal em directo com imagens de vídeo.

Por enquanto, a CNN anuncia o lançamento, no próximo ano, do tal sistema de personalização das notícias, também conhecido por «jornal a la carte».

«Já superámos a etapa do CD-ROM e a etapa seguinte é o jornal a la carte on-line», disse ao «El País» o director da CNN Interactive, Staffan Sanberg.

É interessante observar que, por detrás do desenvolvimento de todas estas aventuras de fim de milénio, deste frenesim para ver quem descobre primeiro novas galinhas de ovos de ouro digitais, está a luta entre grandes grupos de comunicação mais ou menos rivais.

Ted Turner, patrão da CNN, é dono de um império de media. É rival de Rupert Murdoch, outro «mogul» de peso à escala planetária, que está por detrás do projecto do «Daily Me» desenvolvido pelo Laboratório de Media (Media Lab) do Instituto de Tecnologia do Massachussets (MIT). Nesta guerra entra também a empresa de um dos homens mais ricos da América, o patrão da Microsoft, Bill Gates. E as poderosas empresas editoras do Wall Street Journal e do Economist não estão propriamente a ver passar os navios.

Estamos, sem dúvida, a viver um período de febre digital, em especial na área da edição electrónica. Novos produtos, suportes, soluções e tecnologias sucedem-se a um ritmo sem paralelo na história da humanidade. Para os chamados cidadãos comuns, o futuro está, de facto, a chegar depressa demais. 1

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