O teletrabalho, ou trabalho à distância, não é assim uma ideia tão novacomo possa parecer à primeira vista. Um físico chamado Jack Nilles falou neste conceito, pela primeira vez, em 1973.
Hoje, as possibilidades oferecidas pelo casamento entre os computadores e os telefones, incluindo os telemóveis, tornam a abordagem do teletrabalho mais oportuna que nunca. Em diversos ramos de actividade já não há necessidade praticamente nenhuma de o trabalhador se deslocar ao escritório para realizar as suas tarefas. Pode fazê-lo em casa com a preciosa ajuda das novas tecnologias da comunicação.
Para empresas conservadoras, excessivamente hierarquizadas e centralizadas, esta perspectiva deve parecer aterradora. O exemplo é extremo, mas imagine-se o que seria falar de teletrabalho aos responsáveis das empresas de sapatos de São João da Madeira que inventaram um cartão magnético para controlar a ida dos funcionários à casa de banho...
O funcionamento descentralizado de uma empresa obriga a um grau de maturidade elevado, quer por parte dos empregadores, quer por parte dos empregados. Os primeiros terão de entender que nem sempre é necessário andar em cima do trabalhador para ver assegurada a sua produtividade. Os segundos deverão apostar na sua auto-responsabilidade.
O número de teletrabalhadores têm crescido a um ritmo acelerado. Só nos Estados Unidos são já 20 milhões. Na Europa, milhão e meio. As previsões, no entanto, apontam para um crescimento anual de 50 por cento no Velho Continente.
Há vários factores que contribuem para este crescimento. Entre eles, a melhoria das tecnologias e a necessidade de as empresas tornarem mais flexíveis as fórmulas laborais. Não esqueçamos também as minorias. O teletrabalho é bastante útil e atraente para pessoas com deficiências físicas e para pais que levem as obrigações domésticas a sério.
Empresas como a Rank Xerox ou a IBM foram pioneiras no trabalho à distância. Outras, mais recentes, não ficaram atrás. A Telecom Itália agarrou em 240 dos seus empregados e mandou-os trabalhar para casa, com electricidade paga e mesmíssimas condições contratuais dos restantes funcionários. Mas, como sangue latino é sangue latino, os finórios patrões preveniram-se. Dotaram o equipamento de teletrabalho com um mecanismo de vigilância. Quando o empregado inicia as suas tarefas em casa, uma luzinha acende-se na secretária do chefe.
As vantagens do teletrabalho são muitas. Para as empresas, significa redução de custos gerais, menos gastos com equipamento e espaço, menor consumo de energia. Por outro lado, sabem que contam com um tipo de trabalhador altamente qualificado e flexível e que, em casa, poderá ter condições para melhorar a sua produtividade. Hoje em dia, em muitos casos, o trabalhador chega já estourado à empresa. Levantou-se a correr, fez o pequeno-almoço aos filhos, levou-os à pressa à escola e ainda por cima esteve na fila de trânsito mais de uma hora.
É evidente que também existe o reverso da medalha. O teletrabalho pode potenciar o carácter individualista dos cidadãos em sociedades já de si ensimesmadas, quebra elos sociais, diminiu o «espírito de empresa». Enfim, deve ser dramático para tagarelas e amantes de locais de trabalho enfumarados.
O aumento dos adeptos da modalidade do trabalho à distância pode quer dizer-nos que a própria sociedade está a mudar. As pessoas começam a cultivar novas atitudes perante a vida, as empresas, as instituições. Valorizam mais o seu tempo livre e familiar, optando por viver longe da confusão das grandes cidades.
Os jovens de hoje, como bem assinala o autor espanhol José Terceiro, são menos dados à fidelidade a uma empresa e prestam-se pouco a venerar hierarquias. Mais independentes e audazes, não se sentem comprometidos como seu empregador. Talvez sejam menos paranóicos com a ideia «yuppiesca» de chegar ao topo. São os teletrabalhadores do futuro.