Enquanto os cibernautas gozam, cada vez mais, as inovações propostas diariamente pelos diários digitais, há já quem esteja a pensar um passo à frente. É o caso de duas figuras muito respeitadas na área das novas tecnologias da comunicação: Roger Fidler e Nicholas Negroponte.
Ambos têm desenvolvido projectos de investigação orientados para a resposta à seguinte pergunta: o que se poderá fazer para melhorar a distribuição da informação jornalística nos próximos anos?
No início da década de setenta, Roger Fidler foi editor gráfico do diário Detroit Free Press. A partir de 1979, desenvolve um serviço de videotexto, designado Viewtron, para o poderoso e ousado grupo de imprensa norte-americano Knight-Ridder. Se a ideia era boa, acabou por ser um estrondoso fracasso. Mas isso não foi suficiente para desanimar Fidler.
Boa parte da década de oitenta foi passada à frente da primeira rede de serviços de imagens gráficas em linha ("on-line") para jornais. Sempre inquieto, passou, em 1992, para o laboratório de design da sua empresa e começou a trabalhar uma ideia: o painel plano ou "flat panel".
Trata-se de um painel de 30 por 20 centímentros, com uma espessura de apenas um centímetro e menos de mil gramas de peso. Função? Receber jornais electrónicos.
Fidler tencionava pôr no mercado o seu "flat panel" já em 1996. O aparelho ligar-se-ia às linhas telefónicas, por via aérea ou terrestre, para receber jornais multimedia, isto é, integrando texto, som e imagem. O leitor poderia interagir com o produto para realizar operações bancárias, reservar bilhetes de cinema ou de avião, enviar correio electrónico e divertir-se com jogos.
A interacção com o ecrã de alta definição é feita com uma espécie de lápis electrónico ou então através do reconhecimento de voz: nós falamos e o painel obedece.
Fidler queria avançar com um trunfo que os jornais electrónicos da Internet não possuem: a portabilidade. Podendo ser transportado e lido em qualquer lugar, o "flat panel" é uma alternativa aos actuais jornais de papel. Fácil de manejar, seria também, segundo aquele professor, um óptimo instrumento de trabalho para jornalistas. Estes profissionais poderiam antecipar a procura do leitor sobre um qualquer tema e enriquecer a informação com gráficos, contexto e profundidade.
Era tudo muito bonito. Mas a Knight-Ridder achou que ainda é cedo para avançar com o arrojo do painel plano. Por isso, mandou cancelar o projecto, em Julho do ano passado, e concentrou todos os esforços no desenvolvimento do espectacular San Jose Mercury Center, um dos melhores produtos disponíveis na Internet. Fidler regressou à universidade, mas não desistiu do seu "flat panel".
Nicholas Negroponte, disléxico, director do Media Lab do prestigiado Massachusetts Institute of Technology (MIT), guru da era digital, colunista da "Wired", autor do trepador de vendas "Ser Digital". Tem uma alternativa ao painel de Fidler. Chama-lhe "daily me", que poderíamos traduzir por diário personalizado.
Negroponte, em vez da portabilidade do painel de Fidler, prefere que o leitor possa personalizar o seu jornal diário. Para isso defende o aperfeiçoamento de tecnologia que permita ao senhor Almeida ler, todas as manhãs, no seu computador caseiro, um jornal com noticiário previamente seleccionado por si. O sr. Almeida dá instruções ao seu terminal para que procure apenas notícias de tauromaquia, índices da bolsa, botânica e tudo que tenha a ver com o Lotus Esprit. E é apenas isso que terá de entre biliões de outras notícias espalhadas pelo ciberespaço.
O projecto "daily me" parte da ideia de que os jornais tradicionais se destinam a um público com um perfil muito geral, composto por pessoas com interesses diversos. A par da informação jornalística, o diário personalizado deverá também ser utilizado para tarefas privadas, como correio electrónico ou fóruns de discussão.
Ao contrário do painel de Fidler, o "daily me" carece da definição de forma: será um ecrã plano de grande tamanho para pôr num qualquer compartimento da casa? Um aparelho semelhante ao televisor? Um PC? E será para quando?