Chama-se «Governo em diálogo» a página de António Guterres na Internet. Abriu, anteontem, aos utilizadores desta teia electrónica planetária. A ideia é muito boa, pois torna possível um contacto mais directo, nomeadamente através da colocação de perguntas ao primeiro-ministro, entre cidadãos e governantes.
Basta teclar, num terminal ligado à rede, o endereço http://www.primeiro-ministro.gov.pt para lhe aparecer à frente uma foto de Guterres rodeada por outras imagens que dão acesso a uma mensagem do próprio, a um arquivo, a fotos da sua residência oficial, ao correio electrónico, etc.
Se o cidadão quiser, por exemplo, criticar a forma como o primeiro-ministro está a lidar com a polémica questão do aborto em Portugal, a mensagem poderá chegar quase instantaneamente aos assessores do governante. Segundo a etiqueta reinante na Net, a falta de resposta será considerada algo próximo do insulto. Espera-se, pois, que este «Governo em diálogo» na sua versão virtual funcione a sério. Que, pelo menos, responda. A rede é um meio onde o conceito de interactividade está muito enraizado, mas a maior parte dos políticos parece não perceber isso. Acha que é politicamente correcto, até porque está na moda, estrear «sites» na Internet, mas depois não lhes liga patavina.
Em Abril passado, o JN publicou um texto intitulado «Políticos na rede com fraca interactividade». Nessa altura, já uma mão cheia de partidos tinha a sua página electrónica. Foram contactados, via correio electrónico, no sentido de explicarem as razões que os levaram a apostar no ciberespaço.
O Grupo Parlamentar do PS, ao fim de 15 dias, ainda não tinha dado qualquer resposta. O Partido da Terra simplesmente não respondeu. Dois deputados à Assembleia da República, um do PS e outro do PSD, também não ligaram ao «email». Com alguma celeridade responderam apenas o PSD e o PCP.
Os políticos, como se sabe, vivem da imagem que conseguem vender ao eleitorado. Hoje em dia, fica bem dar um ar de vanguardismo. Quanto mais não seja porque o número de vanguardistas cresce todos dias aos pacotes e não vá o diabo tecê-las. O problema é que o tiro pode sair pela culatra.
Veja-se o caso da mais recente campanha eleitoral para as eleições presidenciais dos Estados Unidos. Nunca os candidatos apostaram tanto na Internet, leia-se, no eleitorado constituído por milhões de cibernautas.
Quando se põe sapateiros a tocar rabecão à força, há «gaffe» certa. No primeiro dos debates televisivos entre Bob Dole e Bill Clinton, o candidato republicano quis dar uma de «eu posso ser velhinho, mas ainda estou aí para as surfadelas com o pessoal da Net». Resultado: nem o endereço electrónico da página da sua própria campanha soube dizer em condições.
Os politólogos norte-americanos vão, entretanto, à TV dizer que ainda está por provar a eficácia destas apostas eleitorais electrónicas. Mas isso parece não inibir os políticos e respectivos estrategos. Por uma razão simples: ninguém quer ficar para trás. É o efeito dominó em acção. Aliás, trata-se de um fenómeno extensível a diversas outras áreas.
Quando perguntam a um empresário a razão por que montou uma página da sua empresa na World Wide Web (WWW), uma sub-rede da Internet, a resposta é quase sempre a mesma: «Porque todas as outras o estão a fazer...»