Ciber sim, sr. ministro

Hélder Bastos, JN, 2 de Novembro, 1996
Os políticos gostam cada vez mais da Internet. Fazem bem. Os políticos gostam cada vez mais de inaugurar páginas na Internet. Fazem muito bem. Os políticos depois não ligam nada aos cibernautas. Fazem, obviamente, mal.

Chama-se «Governo em diálogo» a página de António Guterres na Internet. Abriu, anteontem, aos utilizadores desta teia electrónica planetária. A ideia é muito boa, pois torna possível um contacto mais directo, nomeadamente através da colocação de perguntas ao primeiro-ministro, entre cidadãos e governantes.

Basta teclar, num terminal ligado à rede, o endereço http://www.primeiro-ministro.gov.pt para lhe aparecer à frente uma foto de Guterres rodeada por outras imagens que dão acesso a uma mensagem do próprio, a um arquivo, a fotos da sua residência oficial, ao correio electrónico, etc.

Se o cidadão quiser, por exemplo, criticar a forma como o primeiro-ministro está a lidar com a polémica questão do aborto em Portugal, a mensagem poderá chegar quase instantaneamente aos assessores do governante. Segundo a etiqueta reinante na Net, a falta de resposta será considerada algo próximo do insulto. Espera-se, pois, que este «Governo em diálogo» na sua versão virtual funcione a sério. Que, pelo menos, responda. A rede é um meio onde o conceito de interactividade está muito enraizado, mas a maior parte dos políticos parece não perceber isso. Acha que é politicamente correcto, até porque está na moda, estrear «sites» na Internet, mas depois não lhes liga patavina.

Em Abril passado, o JN publicou um texto intitulado «Políticos na rede com fraca interactividade». Nessa altura, já uma mão cheia de partidos tinha a sua página electrónica. Foram contactados, via correio electrónico, no sentido de explicarem as razões que os levaram a apostar no ciberespaço.

O Grupo Parlamentar do PS, ao fim de 15 dias, ainda não tinha dado qualquer resposta. O Partido da Terra simplesmente não respondeu. Dois deputados à Assembleia da República, um do PS e outro do PSD, também não ligaram ao «email». Com alguma celeridade responderam apenas o PSD e o PCP.

Os políticos, como se sabe, vivem da imagem que conseguem vender ao eleitorado. Hoje em dia, fica bem dar um ar de vanguardismo. Quanto mais não seja porque o número de vanguardistas cresce todos dias aos pacotes e não vá o diabo tecê-las. O problema é que o tiro pode sair pela culatra.

Veja-se o caso da mais recente campanha eleitoral para as eleições presidenciais dos Estados Unidos. Nunca os candidatos apostaram tanto na Internet, leia-se, no eleitorado constituído por milhões de cibernautas.

Quando se põe sapateiros a tocar rabecão à força, há «gaffe» certa. No primeiro dos debates televisivos entre Bob Dole e Bill Clinton, o candidato republicano quis dar uma de «eu posso ser velhinho, mas ainda estou aí para as surfadelas com o pessoal da Net». Resultado: nem o endereço electrónico da página da sua própria campanha soube dizer em condições.

Os politólogos norte-americanos vão, entretanto, à TV dizer que ainda está por provar a eficácia destas apostas eleitorais electrónicas. Mas isso parece não inibir os políticos e respectivos estrategos. Por uma razão simples: ninguém quer ficar para trás. É o efeito dominó em acção. Aliás, trata-se de um fenómeno extensível a diversas outras áreas.

Quando perguntam a um empresário a razão por que montou uma página da sua empresa na World Wide Web (WWW), uma sub-rede da Internet, a resposta é quase sempre a mesma: «Porque todas as outras o estão a fazer...» 1

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